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  • Foto do escritorNelson Ricardo Guedes dos Reis

Passado Perfeito - Leonardo Padura

Atualizado: 23 de jun. de 2020

Passado Perfeito - Leonardo Padura


(Havana: entre o bolero e a rumba)



Padura inicia sua tetralogia, “Estações Havana”, em 1991, com a publicação do romance Passado Perfeito. Nos anos que se seguiram, o escritor cubano daria andamento ao seu projeto literário, até a publicação de Paisagem de Outono, último romance da tetralogia, em 1998. Nos quatro livros, os dois protagonistas principais são: o detetive Mário Conde, e a cidade de Havana.


Sem querer desmerecer as ótimas tramas criadas pelo autor nos quatro romances, as investigações de Conde não são, penso eu, o principal atrativo da obra. Tanto neste primeiro livro (Passado Perfeito), cujo título é bastante significativo, como veremos adiante, quanto nos outros três, o que mais chama a atenção do leitor é a desilusão melancólica do personagem, assim como dos seus amigos, frutos da mesma geração: Magro Carlos, Coelho, Pancho…. Os quatro romances se passam no ano de 1989, um em cada estação. Este ano é bastante emblemático na história cubana, pois funda o início do período mais duro, em termos econômicos, enfrentado pelo governo de Fidel Castro. A década de 90 foi uma década de penúria e sacrifícios para o povo cubano, pois somado ao bloqueio econômico imposto pelos EUA ao país, a União Soviética, que até então subsidiava Cuba com compras superfaturadas dos produtos cubanos, e lhes vendiam produtos subfaturados, além de diversas outras formas de ajuda econômica, logística e estrutural, com a Glasnost e a Perestroika, cessa de forma abrupta quase que a totalidade de sua ajuda a Cuba. Devido a esses fatores, na década de 90 o povo cubano passou por uma crise sem precedentes em sua história. A população emagreceu, em média, mais de 10 quilos, a criminalidade aumentou, as tentativas de fuga da ilha também, e com tudo isso, e como consequência, veio o aumento da desesperança.


Leonardo Padura


Em Passado Perfeito, Mário Conde investiga o desaparecimento de um executivo do governo cubano, ligado ao ministério das indústrias, Rafael Morin, ocorrido na madrugada do dia primeiro de janeiro. Porém, ao saber o nome do desaparecido, uma cadeia de recordações toma conta do personagem, fazendo com que o romance alterne sua narrativa entre o presente (ano de 1989), e seus anos de aluno no colégio La víbora, no curso pré-universitário, onde conheceu e foi colega de Rafael Morin, dois anos mais velho, e apaixonado pela bela Tamara, sua colega de turma, namorada e atual esposa de Rafael. Amor este que dividia com seu grande amigo, Magro Carlos.


A narrativa assim se desenrola em contraponto; entre a frustração de Conde nos dias atuais (“sempre quis ser escritor, desde sua adolescência no La víbora, e ainda alimenta esse sonho. Ser policial foi um acaso do destino, quase uma necessidade após a morte do pai. Não gosta da profissão, não se acha um policial, apesar de todos dizerem que é um dos melhores”), e seus sonhos da juventude.


Na verdade, os sonhos e esperanças de Conde e seus amigos representam os sonhos e esperanças da geração cubana nascida entre o final da década de 50 e o início da década de 70. Foi um momento em que o povo cubano acreditava que sua nação iria se desenvolver, de forma justa e igualitária. Os longos discursos do comandante e sua massiva propaganda, fez o povo cubano ter esperança em um futuro melhor. Os jovens imaginavam ser médicos, engenheiros, esportistas, ganhar muito dinheiro, viajar pelo mundo, ter uma bela casa, um belo carro e uma bela família (talvez esse sonho tivesse se tornado realidade para a grande maioria, não fosse o bloqueio econômico imposto pelos EUA, a partir da década de 60). Na verdade esses jovens se tornaram médicos, engenheiros, etc, mas o resto do pacote (belos carros, dinheiro, viagens) não veio junto.



Na medida que vai desvendando o caso, e aos poucos desmascarando a perfeição invejada e modelar de Rafael Morin, Conde vai se questionando sobre suas escolhas e o que fez de sua vida, ou melhor dizendo, o que o sistema econômico-político cubano, e em última instância, mundial, fez com a vida dele e de seus contemporâneos. Conde é fruto de uma geração frustrada, e essa frustração se reflete no personagem, em uma melancolia às vezes profunda e emotiva: “Conde sorriu, mas sentia vontade de chorar. Olhou para cima da cabeça do amigo e viu a parede, e viu o pôster desbotado dos Rolling Stones…” Cenas como essa se repetem várias vezes no romance, em contraste com as lembranças dos momentos felizes e repletos de esperança no futuro, quando estudante do pré-universitário. Esperança em si mesmos, esperança em Cuba, esperança em Fidel Castro.


O caso é resolvido, mas Conde não se sente realizado, pelo contrário, quando Manolo, seu auxiliar na investigação, pergunta a ele qual a sensação de resolver um caso como aquele, ele responde, após estender as mãos abertas em cima da mesa, com as palmas para cima: “Assim Manolo, de mãos vazias. Todo o mal já estava feito.” O caso com Tamara provavelmente será efêmero, pois não podemos reviver o passado, um passado perfeito. E quando volta para casa, depois de mais um lauto jantar na casa de Magro, preparado pela José (“como gosto dela cacete”), mãe do Magro, ele se depara com sua realidade dura, crua: “Isto é um quarto vazio, pensou, e respirou o cheiro profundo e consistente da solidão. Ali está uma cama vazia, e viu as formas misteriosas dos lençóis desarrumados que ninguém se preocupava em esticar.”


E finalmente, como pano de fundo de toda a história narrada, no presente e no passado, está Havana: suas ruas, suas construções, seu povo, sua atmosfera. Uma Havana que parou no tempo, que se recusa a envelhecer, evoluir, regredir. Simplesmente está lá. A mesma casa que Tamara morava quando jovem continua de pé, do mesmo jeito que outrora e praticamente com o mesmo mobiliário, e agora abriga uma nova geração. Havana e seu povo resistem de pé, melancólicos, mas com um travo de esperança que se ouve ao longe, como o som de um triste bolero que aos poucos se torna uma animada e caliente rumba.





(O presente texto teve como base a segunda edição, datada de novembro de 2016, do romance Passado Perfeito, de Leonardo Padura, da editora Boitempo, com tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman. Para quem tiver interesse, a netflix, em 2016, filmou os quatro livros do projeto Estações Havana. Com a ajuda do próprio Padura como co-roteirista, o canal criou uma espécie de série, intitulada "Four seasons in Havana", em quatro episódios, cada um baseado em um dos livros. Apesar de deixar a dever em alguns aspectos aos romances que os inspiraram, os episódios são deliciosas viagens por Havana, onde foram integralmente gravados.)


259 visualizações4 comentários

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4 Comments


criticaderodape
Jun 23, 2020

Obrigado Max, Isaac e Márcia, espero que o texto tenha despertado em vocês o desejo de ler o livro e de conhecer essa bela ilha, que eu já tive o prazer de visitar.

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Maximino lage
Jun 12, 2020

belo resumo do livro e da situação caótica da nossa querida Cuba.

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isaacseixasbh
Jun 05, 2020

Adorei a forma como você desenvolveu a crítica. Os anos 90 até hoje ecoam nos corações e nas lembranças do bravo povo cubano. Parabéns!

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marciatristao64
Jun 04, 2020

Muita bacana o texto, parabéns! Para mim, transmitiu bem a essência do livro e da tetralogia. A história de Cuba é única!

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