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  • Foto do escritorNelson Ricardo Guedes dos Reis

O Legado de Humboldt

Atualizado: 27 de jun. de 2020

O Legado de Humboldt - Saul Bellow


(Em busca da Magnum Opus da literatura americana)




A literatura americana, falando de uma maneira ampla, escritores, críticos e leitores, mais especificamente os primeiros, cultivam há décadas, na verdade há mais de um século, uma grande obsessão, qual seja: criar sua grande obra, sua Magnum opus, termo inclusive muito utilizado pelos próprios críticos americanos. Uma obra que rivalize com as grandes obras da história da literatura mundial, que esteja para os americanos e sua cultura, no mesmo patamar de Fausto para os alemães, de Guerra e Paz e os Irmãos Karamzov, para os russos, da Divina Comédia para os italianos, de Hamlet para os Ingleses, e por aí segue. Obras definitivas, emoldurando culturas seculares. Porém, a literatura americana jamais criou sua Magnum Opus, e eu receio que o momento para isso já tenha passado. O que não desmerece em nada a grande literatura americana, que nos deu Hemingway, Thomas Pynchon (e sua louvável tentativa de obra definitiva em O arco-íris da gravidade), Norman Mailer, Philip Roth, Fitzgerald, Steinbeck, John Updike, Faulkner, dentre diversos outros; e isso sem falar em seus poetas e teatrólogos: Walt Whitman, T.S Eliot, Emily Dickson, Elizabeth Bishop, Tenessee Williams, só para citar alguns. Entretanto, e esse é o meu sentimento ao ler os romances americanos, seus autores sempre buscaram isso, de forma consciente ou não, ou seja: escrever o grande romance americano. Creio que, de muitas formas, essa obsessão os prejudicou como escritores livres; pois nenhum artista pode ser verdadeiramente livre se há uma pressão, interna ou externa, explícita ou velada, de se criar uma obra prima que carregue em suas costas e em suas páginas, um resumo representativo de um povo, de uma cultura.


Dentre os diversos escritores que sofreram essa pressão, sem dúvida um deles foi Saul Bellow. É importante ressaltar, contudo, que essa “cobrança” surgiu basicamente no século XX, e foi aumentando gradativamente com o passar das décadas, até atingir seu auge nas décadas de 50, 60 e 70, atingindo diretamente a brilhante geração de escritores desse momento da literatura norte americana. Reafirmo que essa cobrança nunca foi explícita, mas durante todo o século XX estava ali, de forma sub-reptícia, pairando sobre suas penas e seus teclados. Sempre que surgia um calhamaço (sim, uma Magnum Opus, o resumo de uma cultura, não pode caber em 200, 300 páginas) de um dos grandes escritores americanos, público leitor, críticos e outros escritores (esses últimos preocupados de terem perdido a corrida) ficavam ansiosos pela leitura e a confirmação se “aquele” seria o grande livro.



Saul Bellow, assim como os outros autores aqui citados, e mais alguns que ficaram de fora desse texto, não por esquecimento, mas por não querer cansar o leitor com listagens, nunca escreveram a tão esperada obra resumo de uma nação e de uma cultura. Na falta de uma definitiva, muitos críticos, e os próprios leitores, elegeram uma que ocuparia o posto até o aparecimento da tão aguardada Magnum Opus. Estou falando de O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger. Grande romance, mas com certeza supervalorizado pelos americanos. Tenho minhas dúvidas se seria tão citado e cultuado se tivesse sido escrito em outro país. Mas enfim, isso é um tema para outra oportunidade. Voltando a falar de Bellow, ele com certeza teve como companheiro de vida, pelo menos de sua vida como escritor, essa espera ansiosa da crítica e leitores pela obra definitiva da literatura americana. E Bellow, assim como outros grandes escritores americanos, legaram para a humanidade dezenas e dezenas de obras primas, nenhuma delas, entretanto, se equipara em qualidade e importância às grandes obras da literatura mundial citadas no início desse texto.


Entretanto, em seu conjunto, a literatura americana não fica muito a dever à literatura europeia e russa. O escritor americano foi um dos principais cronistas do século XX, como os alemães, franceses, russos e ingleses o foram do séculos XVII, XVIII e XIX. Dentre a não tão extensa obra de Bellow, mas composta de grandes romances, como Herzog; Henderson, o rei da chuva; e O planeta do senhor Sammler, O legado de Humboldt é, provavelmente, sua principal obra, ou seja, sua maior tentativa de criar a Magnum Opus da literatura americana.


Neste livro de quase 600 páginas, acompanhamos uma parte da vida de Charles Citrine, escritor laureado com o Pulitzer (Pulitzer esse recebido pelo próprio Saul Bellow por essa obra), mas que vive uma vida medíocre e covarde: explorado pela ex-esposa, até sua quase completa falência; traído e tripudiado pela bela, jovem e fútil Renata, sua namorada; intimidado por um projeto de mafioso, Cantabile; também explorado financeiramente por amigos que lhe propõem projetos (financiados por ele, como por exemplo a revista que editaria junto com seu amigo Thaxter e que nunca saiu do papel, apesar de milhares de dólares investidos por Citrine); isso sem falar dos advogados que lhe tiram até as tripas. Charles Citrine encontra-se em uma fase de total estagnação em sua vida emocional, financeira e criativa. É nesse momento que as recordações de seu mestre e amigo lhe voltam com uma força opressora: Humboldt, um esquecido poeta, que escreveu uma obra prima da poesia americana e depois disso nunca mais repetiu o sucesso ou a qualidade daqueles seus primeiros poemas. Citrine, quando jovem, procura o então famoso poeta, que até então ainda vivia dos louros de seu pequeno livro que havia influenciado toda uma geração de jovens. Os dois se tornam amigos, e Citrine uma espécie de aprendiz de Humboldt. Até que com o passar do tempo e o sucesso da peça de Citrine na Broadway, os dois se afastam gradativamente, e Humboldt passa a nutrir um misto de ciúme, inveja e desprezo por Citrine; porque ele, Humboldt, se manteve fiel à sua arte, e estava se encaminhando a passos largos para o esquecimento, enquanto o amigo, que criou uma peça cujo o personagem tinha sido inspirado nele, e que foi totalmente modificada pelos produtores para se adequar ao público, estava ficando rico, famoso e laureado.


Charles Citrine, após a morte de Humboldt, começa analisar sua vida, sua obra, suas decisões e recordar os bons momentos ao lado do amigo, e sente-se culpado por tê-lo abandonado, ou melhor, de permitir que Humboldt se afastasse dele. O fulcro principal do livro é o ajuste de contas do personagem com seu passado e sua dívida com Humboldt, e permeando isso está sua crise dos cinquenta anos, suas digressões em relação à morte, e sua busca, como a uma tábua de salvação, de uma maneira de lidar com a finitude. E a encontra na antroposofia e na obra de Rudolf Steiner, que buscava aproximar fé e ciência. Sem dúvida algo bastante conveniente para um homem culto, inteligente e cético, que começa a ter medo da morte:


“Pois havia passagens de Steiner que me causavam arrepios. Dizia a mim mesmo, isso é loucura. Depois dizia, isto é poesia, uma visão grandiosa. Além disso, tinha importância o que eu fizesse comigo? Envelhecido, magoado, meditando nos aromas da cozinha, vestindo a capa de Renata na privada - era da conta de alguém o que essa pessoa fizesse consigo mesma? A estranheza da vida, quanto mais você resistir mais duramente ela o abaterá (...) talvez o fato de eu haver aprendido a permanecer à parte, com minhas próprias fraquezas e os absurdos da minha personalidade, podia significar que estava um pouco morto.”


É nesse momento de busca interior, em contraposição ao desmoronamento de sua vida afetiva, financeira e profissional, que ele recebe o legado de Humboldt. Um presente deixado pelo poeta e amigo, vindo diretamente do além túmulo, através de um testamento que ficou escondido por anos. Legado esse inclusive, que não sendo uma decepção para o personagem, não deixa de sê-lo um pouco para o leitor. Contudo, é bom ressaltar, que o verdadeiro legado de Humboldt, não são as páginas deixadas em seu testamento para Citrine, mas sim os anos de convivência e aprendizado desse com essa figura completamente fora dos padrões institucionais e morais da sociedade da época. Quando a narrativa se encaminha para o seu desfecho, vemos um Citrine parcialmente redimido com seu velho amigo e mestre, que ao contrário dele não fez nenhuma concessão às instituições, à arte, à vida. Para Citrine, o dinheiro não mais importa, se livra de Cantabile, é abandonado pela namorada e ajusta uma parte de sua dívida moral com Humboldt, através da realização de seu legado e o enterrando pela segunda vez, e junto com ele uma parte de sua própria vida: “Devo ir para Almería por uma semana mais ou menos e depois volto para os Estados Unidos. Tenho uma casa em Chicago cheia de coisas para resolver. Crianças para ver (...) Quando tiver resolvido estes pontos necessários e amarrado uns fios pendentes, voltarei para a Europa. Para levar uma vida diferente.”


Bellow pretende que Charles Citrine seja um personagem fruto de uma época de desesperança: as décadas posteriores ao segundo conflito mundial e pontuadas por guerras americanas contra inimigos vários. Um tipo de homem americano, que passou pelo romantismo da década de cinquenta, pelo liberalismo da década de sessenta e agora adentra os angustiosos anos setenta. Contudo, Citrine é um dos modelos do homem americano do terceiro quarto do século XX, um dentre vários possíveis. Esse foi o personagem escolhido pelo autor, junto com Humboldt, para demonstrar a desilusão do homem frente ao mundo moderno (no caso, os anos setenta, momento em que a obra foi escrita). Certamente não é a Magnum Opus da literatura americana, mas é uma grande obra literária, escrita com sinceridade e força narrativa, onde Saul Bellow mostra ao leitor, principalmente ao leitor americano, que nem toda grande obra precisa ser o resumo definitivo de um povo, de uma cultura, de um país. Pode ser “apenas” um grande romance da literatura mundial.


(O presente texto teve como base a primeira edição de O legado de Humboldt, da editora Nova Fronteira, de 1977, com tradução de Fernando Py. A primeira edição original em Inglês é de 1973. O livro tem uma edição recente pela Companhia das Letras, que pode ser encontrada facilmente nas livrarias. Também possui uma edição de 1985 do Círculo do Livro.)










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