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Humilhados e Ofendidos - DostoiƩvski

  • Foto do escritor: Nelson Ricardo Guedes dos Reis
    Nelson Ricardo Guedes dos Reis
  • 18 de jun. de 2020
  • 9 min de leitura

Atualizado: 27 de jun. de 2020

HUMILHADOS E OFENDIDOS

Fiódor Dostoiévski


(Romance de transição?)


DostoiƩvski


A obra de Fiódor Mikhailovich DostoiĆ©vski Ć© dividida, pela grande maioria dos crĆ­ticos literĆ”rios e estudiosos do escritor russo, em duas fases, a saber: aquela anterior Ć  sua prisĆ£o na SibĆ©ria, ocorrida no inĆ­cio da dĆ©cada de 50 do sĆ©culo XIX, quando escreveu os romances: Gente pobre, O duplo, Noites brancas e NiĆ©totchka, alĆ©m de alguns contos e novelas; e aquela que se inicia após seu regresso para SĆ£o Petersburgo, em 1859 (DostoiĆ©vski fica aproximadamente cinco anos preso na SibĆ©ria, submetido a trabalhos forƧados, por ter supostamente feito parte de um grupo que pretendia depor o Czar Nicolau I. Após esse perĆ­odo cumpre mais quatro anos de serviƧo militar compulsório, no CazaquistĆ£o), que Ć© considerada sua fase mais criativa e madura, com a publicação de suas obras primas, os romances: Crimes e Castigo, O idiota, Os demĆ“nios e Os irmĆ£os Karamazov. Contudo Ć© importante salientar uma fase que poderĆ­amos considerar de transição em sua obra, que inclui um livro autobiogrĆ”fico - narrando suas experiĆŖncias e impressƵes da prisĆ£o -, Recordação da casa dos mortos (com seus primeiros capĆ­tulos sendo publicados em forma de folhetim, entre os anos de 1860 e 1861), e os romances: Humilhados e Ofendidos (tambĆ©m publicado em folhetim no ano de 1861) e Notas do subterrĆ¢neo (1864 – este, inclusive jĆ” Ć© considerado por muitos crĆ­ticos como a obra que inaugura a brilhante segunda fase do autor, que publicaria dois anos depois seu primeiro grande sucesso literĆ”rio após o retorno a SĆ£o Petersburgo, o livro Crime e Castigo).


O romance Humilhados e Ofendidos, que tambĆ©m recebeu uma ótima acolhida de crĆ­tica e pĆŗblico, possui uma forte conotação autobiogrĆ”fica (como alguns outros romances de DostoiĆ©vski, citando como exemplo O jogador). Seu personagem principal e narrador da história, Ivan Petrovich, vulgo Vania, Ć© um escritor pobre, que teve sua primeira obra bem recepcionada pela crĆ­tica (no romance o narrador cita B..., clara alusĆ£o a Belinski, grande crĆ­tico da Ć©poca e que teceu loas ao primeiro romance de DostoiĆ©vski, Gente pobre, e desancou de forma quase cruel seu segundo livro, O Duplo), mas que nĆ£o obteve o mesmo sucesso em suas tentativas posteriores. Vania, assim como seu criador, tambĆ©m sofre com a pressĆ£o dos editores, pois ao necessitar sempre de adiantamentos desses, se vĆŖ pressionado depois a trabalhar exaustivamente para cumprir os prazos de entrega de suas obras (inclusive o romance inicia-se e termina após um ciclo exaustivo de trabalho, o que leva o protagonista a adoecer. E Ć© de uma cama de hospital que ele nos conta sua história: ā€œtodos esses belos projetos deram na minha atual situação: atirado a uma cama de hospital e segundo parece muito próximo da morte. E se o fim estĆ” próximo, que me adianta escrever? (...) sim, Ć© uma boa ideia. Se eu morrer o enfermeiro herdarĆ” estas memórias, seja embora para tampar as fendas da janela quando o inverno chegarā€). TambĆ©m a doenƧa que atormentou DostoiĆ©vski por toda sua vida, a epilepsia, pela qual padecia um de seus grandes personagens, o prĆ­ncipe Mitchkin, de O idiota, estĆ” presente aqui, acometendo a pequena Nelly, personagem fundamental na trama bem urdida de Humilhados e Ofendidos.


Xilogravura de Oswaldo Goeldi


Neste romance jÔ podemos notar, mais do que de forma embrionÔria, mas ainda não totalmente amadurecidos, vÔrios dos principais elementos que imortalizaram a obra de Dostoiévski. JÔ percebemos os primeiros passos de sua narrativa polifÓnica, onde as vozes dos personagens rivalizam com a do narrador para construir a trama e apresentar ao leitor o íntimo de suas almas. Também a analise psicológica que tanto caracterizou a obra do autor russo, aqui se faz presente. Nesta obra Dostoiévski utiliza (assim como na maioria de seus livros) como modelo o romance realista da primeira metade do século XX (que tem Balzac, Hugo, George Sand e Stendhal como alguns de seus principais representantes), para criar uma base para suas anÔlises psicológico-dialéticas do íntimo de suas personagens, contraditórias e atormentadas por natureza. A crítica social, porém, ainda é o ponto principal do romance, resgatando, de uma certa maneira, suas preocupações jÔ demonstradas em Gente Pobre. Contudo, em Humilhados e Ofendidos, a crítica social é permeada por personagens que não se contentam em apenas fazer os papéis de humilhados, de ofendidos, ou de algozes e prepotentes senhores aristocrÔticos. A narrativa dostoievskiana nos coloca a descoberto os dramas, as contradições, os desesperos e as angústias dos personagens. A diferença é que neste romance Dostoiévski ainda não dÔ o protagonismo à sua psicologia-dialética, sua preocupação maior ainda é com a denúncia das humilhações e ofensas sofridas pelas pobres gentes, por parte de uma aristocracia decadente, mas ainda poderosa, opressora, e arrogante.


De um lado temos os humilhados e ofendidos: o casal Ikhmeniev, que devido Ć  ingenuidade e bondade de Nikolai Serguievich Ikhmeniev, se vĆŖm destituĆ­dos de sua propriedade, atravĆ©s de um processo jurĆ­dico pernicioso e repleto de falsas acusaƧƵes; NatĆ”lia Nikolaievna Ikhmeniev, que para os padrƵes da Ć©poca havia desonrando sua famĆ­lia, abandona o lar por amor a um homem que, por fraqueza de carĆ”ter, a submete a situaƧƵes de profundas humilhaƧƵes; Ivan Petrovich, o narrador, que percebe que ser um escritor conhecido e elogiado, nĆ£o o faz superar as barreiras sociais, apesar de frequentar, esporadicamente, o meio aristocrĆ”tico que despreza: ā€œO senhor estĆ” enganado, prĆ­ncipe; se eu nĆ£o penetro na sua chamada ā€˜alta esfera’ Ć© por que, em primeiro lugar a gente se aborrece, e em segundo lugar por que nada tenho a fazer nela. PorĆ©m, apesar disso, nĆ£o a deixo de frequentar totalmente...ā€ Sua fama nĆ£o lhe trouxe riqueza e tampouco o privou das humilhaƧƵes e ofensas dos poderosos, como veremos em suas relaƧƵes com o prĆ­ncipe Valkovskii; Nelly, a órfĆ£ maltrapilha, que apesar de ser levada a pedir esmolas na rua, trĆ”s em si uma altivez quase nobre (e o motivo disso só descobriremos nas pĆ”ginas finais); e atĆ© mesmo Masloboiev, que atravĆ©s de sua esperteza, golpes e arranjos, consegue transitar em um universo diferente daquele a que pertence por origem, mas que tambĆ©m, ao final, Ć© humilhado e ofendido pela nobreza aristocrĆ”tica que tanto menospreza. Por outro lado temos os opressores, os que se utilizam de sua posição, de direito e de heranƧa, para humilhar e tripudiar dos menos favorecidos de berƧo e de fortuna: o prĆ­ncipe Piotr Alexandrovich Valkovskii; seu filho Aliosha; e todo um sĆ©quito de condessas, condes e princesas que gravitam em torno de uma elite aristocrĆ”tica restrita e decadente, na qual, nĆ£o raramente, os casamentos por interesses financeiros sĆ£o a Ćŗnica forma de manterem seu ā€œstatus quoā€.


A história oscila entre dois eixos centrais, a saber: o primeiro Ć© o drama de amor entre Natasha e Aliosha, e consequentemente as tentativas do prĆ­ncipe Valkovskii de desestabilizar o casal e convencer seu filho a se casar com KĆ”tia, enteada da condessa - velha amiga do prĆ­ncipe - e herdeira de grande fortuna. O segundo eixo Ć© a história de Nelly (durante a leitura percebemos que hĆ” uma ligação entre os dois eixos, alĆ©m da presenƧa do próprio narrador), órfĆ£ que se liga afetuosamente a Vania. Durante a narrativa nos compadecemos com a dupla humilhação de Ikhmeniev, que alĆ©m de ver sua filha desonrada, e ameaƧada pelo prĆ­ncipe, Ć© vĆ­tima de um terrĆ­vel e injusto processo jurĆ­dico perpetrado pelo mesmo prĆ­ncipe. TambĆ©m nos tocamos com a doenƧa e abandono da pequena Nelly (DostoiĆ©vski faz uso de um engenhoso artifĆ­cio literĆ”rio, que inclusive nos faz lembrar da peƧa encenada dentro da peƧa em Hamlet, para, atravĆ©s da história de Nelly, cujo avĆ“ tambĆ©m amaldiƧoou e abandonou a filha que fugiu de casa para seguir ser coração apaixonado, fazer com que o velho Ikhmeniev se sensibilize e perdoe sua filha, que como a mĆ£e de Nelly, nĆ£o passa de uma ingĆŖnua vĆ­tima, ou dos caprichos, ou da vilania de uma nobreza inconsequente de seus atos), e finalmente com a estoica abnegação de Natasha. Mas Ć© nos diĆ”logos e no sĆŗtil escrutĆ­nio das complexas almas dos personagens que o romance ganha seu valor literĆ”rio. O Personagem Aliosha Ć© sem dĆŗvida um dos mais repulsivos da história da literatura. O escritor russo conseguiu criar um personagem execrĆ”vel, sem carĆ”ter (nĆ£o de mau carĆ”ter, mas literalmente sem carĆ”ter) e abjeto, mas que contudo possui uma alma boa, pura, um coração ingĆ©nuo. Entretanto sua pureza e ingenuidade sĆ£o levadas ao paroxismo, tornando o personagem odioso, mimado e irresponsĆ”vel aos olhos do leitor. Ser bom, ter um bom coração, nĆ£o faz sentido algum, se o indivĆ­duo nĆ£o tem forƧa de vontade e carĆ”ter para fazer a coisa certa e moralmente correta. Ɖ o que se lĆŖ nas entrelinhas do personagem. O prĆ­ncipe e seu filho representam muito bem a aristocracia russa aos olhos de DostoiĆ©vski; ou perniciosa e mĆ” como o primeiro, ou nĆ©scia e moralmente obtusa como o segundo.


Mas é o pai de Aliosha, o príncipe Valkovskii, o grande personagem do livro. Nele vemos antecipado (mais precisamente em suas falas no capítulo X da terceira parte) grandes temas que Dostoiévski irÔ discutir mais aprofundadamente em seus futuros romances. O príncipe reúne em si todas as características deletérias que o escritor russo vê no estereótipo da decadente aristocracia russa: a dissimulação, o egoísmo, a hipocrisia, o cinismo. O príncipe encarna a antítese cristã. Todos os seus atos são premeditados e encobertam interesses pessoais (nas derradeiras pÔginas do livro descobrimos uma de suas grandes vilanias do passado, que geraram consequências catastróficas no presente, destruindo a vida de três boas almas). O perfil de sua personalidade vai sendo desvendada aos poucos, através do brilhante uso que Dostoiévski jÔ faz da polifonia. Isso se dÔ através dos longos diÔlogos do príncipe e Natasha (principalmente no capítulo em que ele, de maneira cínica e dissimulada, oferece sua amizade e a faz acreditar que concorda com o casamento entre ela e seu filho); dos diÔlogos entre Aliosha e Natacha, onde Aliosha reproduz as conversas que tem com o pai que ele admira e venera, e devido à sua ingenuidade que beira a estupidez, mas que em momento algum suplanta sua arrogância nobiliÔrquica, ele se deixa enganar pela argúcia maldosa do príncipe; mas é principalmente nos diÔlogos do príncipe com Vania que percebemos, ou melhor, que entrevemos a alma negra do príncipe, até que finalmente ele retira teatralmente sua mÔscara ao convidar o narrador para jantar, assim que saem de uma visita à casa da condessa. Depois de beber bastante o príncipe vai aos poucos colocando as cartas na mesa:


ā€œNĆ£o se zangue comigo meu caro. Por que se haveria de zangar? Só pró-forma nĆ£o Ć© verdade? No fundo nĆ£o esperava de mim outra coisa, qualquer que fosse o modo pelo qual me expressasse – com uma polidez empomadada, ou como agora, na realidade as ideias teriam sido as mesmas. (...) Mas nĆ£o me olhe assim com esse espanto; se soubesse o quanto me enfadam todas essas inocĆŖncias, todas essas pastorais de Aliosha, todas essas exaltaƧƵes por esse maldito noivado com Natasha, que aliĆ”s Ć© uma linda rapariga. Confesso que celebro involuntariamente uma oportunidade de exprimir todo o horror que me inspiram. E Ć© esta a oportunidade. E hĆ” tanto tempo que eu queria desafogar a minha alma diante de vocĆŖ ah, ah, ah!ā€


E mais a frente, quando fala da noite na casa de Natasha, onde finge concordar com o casamento dos dois:


ā€œEntretanto, queria lhe explicar que ainda tenho uma qualidade que vocĆŖ ignora; Ć© a aversĆ£o para com todos esses imbecis que nĆ£o servem para nada, todas essas ingenuidades e idĆ­lios; um dos meus maiores prazeres sempre foi simular acordos com essa gente, falar no seu tom (grifo meu), e de repente desconcerta-los tirando subitamente a mĆ”scara, e em vez de uma cara de entusiasmo, fazer-lhes uma careta, mostrar-lhes a lĆ­ngua.ā€


Dostoiévski reserva todo um capítulo, mais de vinte pÔginas (no futuro ele dedicarÔ ainda mais pÔginas para o seu antológico discurso do grande inquisidor, em Os Irmãos Karamazov), para colocar na boca do príncipe um libelo da hipocrisia e abjeção humanas. Como podemos ver neste pequeno trecho:


ā€œSe fosse possĆ­vel – claro que nĆ£o o serĆ” nunca dada a natureza do homem – se fosse possĆ­vel que cada um de nós escrevesse todas as suas intimidades, sem recear pĆ“r a descoberto nĆ£o só aquilo que teme dizer, e que por nada do mundo diria aos seus amigos mais Ć­ntimos – mas atĆ© mesmo aquilo que nĆ£o se atreve a confessar a si próprio, - se isso fosse possĆ­vel, creia-me, meu amigo, levantar-se-ia tal peste no mundo que todos nos porĆ­amos a correr, em fuga.ā€


O próprio prĆ­ncipe sente um estranho prazer nessa espĆ©cie de jogo que faz com Vania, de se desmascarar diante dele e causar seu espanto: ā€œExiste uma voluptuosidade especial nesse repentino arrancar de mĆ”scara, neste cinismo em que o homem se mostra subitamente aos demais, sob um aspecto pelo qual nem sequer se digna de se envergonhar.ā€


Humilhados e Ofendidos é por tudo isso, um romance que trafega livremente pelas duas fases de Dostoiévski como escritor. Ocupando confortavelmente esse lugar, o romance ao mesmo tempo que nos mostra a preocupação do autor com as diferenças sociais de sua querida Rússia, deixando clara as virtudes dos menos favorecidos; também nos faz percorrer, de uma forma sutil e quase imperceptível ao leitor menos atento, as Ôreas mais recÓnditas das almas de seus personagens, usando para isso sua pluralidade de vozes, que ao fim e ao cabo, se torna a grande voz dominante do autor, nos descortinando seu universo humano.



(Existem vĆ”rias ediƧƵes de Humilhados e Ofendidos publicadas no Brasil, desde a clĆ”ssica edição da JosĆ© Olympio publicada na dĆ©cada de 50 e depois relanƧada na dĆ©cada seguinte, com tradução de Raquel de Queiroz – mas nĆ£o direto do russo, e sim de uma tradução francesa -, passando pelas ediƧƵes da Nova Alexandria e Civilização Brasileira, atĆ© as recentes ediƧƵes da Martin Claret e da Editora 34 -ambas com traduƧƵes direto do russo, feitas por Oleg Almeida e FĆ”tima Biachi, respectivamente.)

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