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  • Foto do escritorNelson Ricardo Guedes dos Reis

GRANDE SERTÃO VEREDAS: viajando com o Diabo entre Barcelona e Sevilha



Grande Sertão Veredas

João Guimarães Rosa



Viajando com o Diabo entre Barcelona e Sevilha


( O ensaio que se segue, tendo o romance Grande Sertão Veredas, de João Guimarães Rosa como tema, foge um pouco, ou poderia dizer bastante, das análises de outras obras que constam neste blog. Primeiramente optamos por uma abordagem que flerta com a ficção, já que existe uma pequena história por trás do texto crítico, na qual as teorias analíticas aparecem na forma de um diálogo entre dois personagens fictícios. Em segundo lugar, optamos por um recorte específico do texto, no qual analisamos o romance sob a ótica do mito fáustico, adotando um viés teológico e filosófico.)



Assim que embarcamos nos dirigimos às nossas cabines e marcamos de nos encontrar vinte minutos depois no vagão-restaurante para comermos alguma coisa, pois já passavam das dez horas e estávamos com fome. A viagem de Barcelona a Sevilha dura aproximadamente nove horas e o trem disponibiliza três tipos de passagem: a mais barata, em poltronas; a mais cara, em cabines duplas; e uma de valor intermediário, em cabines de quatro pessoas, divididas em cabines masculinas e femininas. Eu e M... optamos por viajar nas cabines coletivas, que custam metade do preço das cabines duplas.

Depois de jantarmos uma salada leve, M... disse que iria se deitar antes que suas colegas de viagem apagassem a luz e fossem dormir. Quando voltei para minha cabine, encontrei dois ocupantes: um jovem, moreno claro e muito falante, que se apresentou como Emílio e se dizia mexicano; o outro ocupante era um homem de aproximadamente sessenta anos ou um pouco menos. Era forte, quase gordo, pele e olhos claros e totalmente careca. As sobrancelhas eram loiras e bastas, o que contrastava com o restante do rosto, sem um pelo. Ao contrário do mexicano, que falava pelos cotovelos me perguntando há quantos dias eu viajava, onde já havia estado e para onde iria depois de Sevilha, o outro homem encontrava-se recostado na parte de baixo do beliche em frente ao meu, lendo em silêncio. Depois de alguns minutos conversando com o mexicano, deitei na outra cama debaixo e também abri meu livro. O mexicano estava sentado na cama de cima e parecia irrequieto. Uns cinco minutos depois, bateram na porta e dois outros homens apareceram chamando Emílio, dizendo que havia espaço na cabine deles. O jovem falante se despediu e ficamos somente eu e o homem calado na cabine. Passamos alguns minutos em silêncio lendo até que ele se levantou, foi até o lavatório, escovou os dentes, lavou o rosto e quando voltou, antes de deitar-se novamente em sua cama, lançou um olhar em minha direção, na verdade para o livro que eu estava lendo. Ficou alguns segundos em silêncio e senti que me olhava, como se me avaliasse. Devolvi o olhar e lhe perguntei, em inglês, se conhecia Guimarães Rosa.

- Você é brasileiro? – me perguntou em um português bem claro, mas com um nítido sotaque alemão.

- Sim – respondi surpreso.

- Eu falo sua língua – e se aproximando tomou delicadamente o livro de minhas mãos. – Posso? – e depois de uma rápida folheada: - É uma primeira edição – afirmou.

- Sim. Estou relendo. Na verdade estou quase no fim.

- Um grande livro.

- Sim. Um primor da língua portuguesa.

- Não apenas da sua literatura ou da sua língua. É uma grande obra da literatura universal. Já tive a oportunidade de ler essa obra algumas vezes. Na minha língua, na primorosa tradução de Curt Meyer-Clason, e na sua.

Ouvindo isso sentei na cama, interessado. Aquele homem parece que sabia do que estava falando. Me apresentei e perguntei o seu nome e como conhecia tão bem o meu idioma.

- Meu nome é Georg e fui professor de literatura alemã no Brasil durante muitos anos. E foi com a leitura de Grande Sertão Veredas que toda a minha história com o seu país começou. Era estudante de Literatura em Frankfurt e me apaixonei pelo livro. Aprendi um pouco da língua, o suficiente para ler algumas obras de referência sobre o romance e seu autor, e desenvolvi minha dissertação de mestrado tendo o Grande Sertão... como tema. Depois fui para o Brasil para aprimorar meus estudos, me casei com uma brasileira e comecei a lecionar em uma faculdade pública. Na verdade nunca deixei de estudar esse livro. Aliás, não deveria viajar com uma edição tão rara.

Estava surpreso com a enorme coincidência. Disse a ele que éramos da mesma área de estudos e que o livro não era meu.

- Peguei emprestado da biblioteca de um amigo em Lisboa e vou devolvê-lo assim que terminar – falei sem entrar em mais detalhes.

Ele sentou-se e manteve o livro nas mãos. Olhava-o ternamente. Depois de alguns segundos, voltou-se para mim e disse, como que fazendo troça.

- É um livro dos Diabos! Como dizem lá em Minas, terra do nosso querido Doutor Rosa. - E ficou revirando o livro entre as mãos.

Eu então, querendo ser espirituoso, falei:

- “Nonada. O Diabo não há!... Existe é homem humano...”

Ele sorriu e depois me olhou seriamente, dizendo:

- Guimarães Rosa disse certa vez, em uma entrevista, que “apenas na solidão pode-se descobrir que o Diabo não existe.” Penso que Rosa pretendia nos dizer que a verdade..., Deus enfim, vamos dar nome aos bois, habita solitariamente em nosso íntimo, e não como querem os maniqueístas junto e em contraposição com o Diabo. O Diabo, ou o mal, está fora, na sujeira em que a sociedade moderna se transformou; e não podemos nos deixar contaminar. Sendo assim, somente na solidão, quando estamos a sós com nós mesmos, me desculpe a redundância, podemos perceber a forte presença de Deus e a inexistência, em contraposição, do Diabo.

- Mas a existência de um não implica necessariamente a existência do outro? – resolvi provocá-lo. E completei: - Não seria melhor falar em uma derrota do Diabo que existe em cada um de nós? Em vez de falar em inexistência?

- Não! O Diabo não existe, meu jovem. O que existe são pessoas que encarnam o mal. Pessoas infelizes. E parodiando Guimarães Rosa: “Se olhares nos olhos deles verás muito da maldade do mundo”, mas não verá o Diabo. Novamente citando-o: “O Diabo pode ser vencido simplesmente porque existe o homem.” E eu complemento: o homem puro, não corrompido pelos valores anacrônicos das sociedades modernas.

- Se ele pode ser vencido é porque então ele existe!

- Não! Repito. Para Guimarães Rosa ele era apenas uma projeção da maldade. Essa sim, sempre existiu, existe e existirá.

- Mas se o mal é um fenômeno social, como você mesmo afirmou, e a sociedade é construída e composta por homens, então o mal nasce do homem.

- Não necessariamente - falou. - O mal nasce das interações humanas. Não é algo endêmico. O bem, sim. O homem nasce bom, são as interações sociais que o tornam perverso, que criam o mal. E o mal é projetado na figura do Diabo, criado para representá-lo. Você entende o que quero dizer? – sem esperar uma resposta, levantou-se e foi até o pequeno armário da cabina, tirou uma garrafa de whisky e serviu dois copos que pegou em cima de uma pequena mesa embaixo da janela. Sem perguntar me passou um dos copos e continuou: – Há uma cena em Grande Sertão..., que os jagunços estão reunidos e começam a falar do Diabo, nomeando-o: “...o que não fala, o que não ri, o muito sério, o cão extremo...” e Diadorim interrompe, dizendo: “O inimigo é o Hermógenes.” – e me olhando fixamente: - Sim, meu caro, o inimigo é o homem, o homem como ser social.

- Você está querendo dizer que a sociedade é perversa em sua essência? -perguntei. - Não acredito nisso. As sociedades contemporâneas são o resultado natural de um processo evolutivo do homem. O ser humano em busca de seu aprimoramento e de uma verdade universal desenvolveu sociedades complexas capazes de suportar seu processo frenético de desenvolvimento material e intelectual.

- Na verdade não estou criticando o processo de evolução das sociedades. De maneira alguma acredito que o homem deva voltar à idade das cavernas e se reunir em pequenas tribos de sobrevivência. O que contesto é a maneira como as sociedades contemporâneas vêm se estruturando e a tábua de valores em que se apoiam – tomou um grande gole do seu whisky e esperou um momento, me olhando, até que entendi que ele estava aguardando que eu também desse um gole em meu copo. Não me fiz de rogado. – O ser humano sempre buscou a verdade – continuou. - Mas que verdade é essa? E quem disse que existe uma verdade universal e muito menos que essa verdade irá redimi-lo ou salvá-lo? O homem é um ser insatisfeito por natureza e definição, sua função precípua é a busca, uma busca que ele sabe infrutífera. E não será essa a sina do homem? Buscar, apenas buscar. Por que o caminho não pode ser o objetivo em si? E talvez não haja uma verdade única, universal e atemporal. Acho que o ser humano sofre mais por tudo o que perdeu do que por aquilo que almeja em vão conquistar. Picasso disse certa vez que a morte não é a maior perda da vida: a maior perda da vida é aquilo que morre dentro de nós enquanto vivemos. Talvez possamos levar esse pensamento para a experiência humana como um todo. A grande perda do homem, como espécie, é aquilo que se perdeu em sua trajetória.

Quando terminou de falar, me encarou como se esperasse uma objeção de minha parte ou uma concordância, sei lá.

- O senhor está com sono?

- Ainda não – respondi.

- Aceitaria um convite para ir até o vagão-restaurante e tomar mais um drink? O meu whisky acabou e também não estou com sono.

- Claro! Mais um drink não faria mal - e de um gole acabei com o resto do líquido que ainda havia em meu copo.

Quando chegamos ao vagão-restaurante, que estava praticamente vazio, sentamos em uma mesa e pedimos dois whiskys. Ficamos em silêncio durante algum tempo até que eu disse.

- É engraçado, a primeira vez que li o Grande Sertão..., e isso já faz uns vinte anos, o que mais me chamou a atenção foi a questão formal, a maneira como Guimarães Rosa construiu suas frases e sentenças, seus neologismos e o ritmo criado por sua sintaxe. Era como se estivesse lendo em um outro idioma que nem eu mesmo sabia que conhecia. Já desta vez o que mais me chamou a atenção foi a história em si e seus vários desdobramentos significativos, principalmente em relação ao pacto fáustico.

Interrompi minha fala para dar um gole em meu whisky, e no silêncio que se fez pude ouvir, bem baixinho, mas envolvendo todo o vagão, os acordes de Stone Flower, de Tom Jobim.

- As duas leituras estão erradas, se me permite uma opinião – disse interrompendo minha rápida viagem nas notas do piano de Jobim. – Grande Sertão Veredas, e não só ele quando tratamos da obra de Guimarães Rosa, mas principalmente esse livro, que é o motivo de nossa conversa, deve ser lido como um todo inseparável, onde forma e conteúdo trabalham juntas, em perfeita harmonia, como em poucas vezes na história da literatura. E nas vezes que isso aconteceu surgiram os clássicos da literatura universal.

Olhei para ele em silêncio e percebi que queria, precisava falar sobre aquele livro que lhe era tão caro. Recostei-me e aguardei. Ele fechou os olhos por um momento e então começou uma das explanações mais apaixonadas que já tive a oportunidade de ouvir sobre uma obra literária. Ele falava, bebia e às vezes fechava os olhos e recitava trechos inteiros do livro, de memória. Acho que ele mal percebeu quando depois de alguns minutos tirei do bolso minha caderneta e fui anotando muito do que ele dizia. No dia seguinte procurei os trechos citados e os transcrevi também. O resto do que lerão em seguida preenchi com minha memória e por que não dizer, com um pouco da minha imaginação.


- Em Grande Sertão Veredas um dos temas abordado por Guimarães Rosa é o drama existencial. Riobaldo é uma espécie de Hamlet sertanejo. Ele carrega consigo algumas das principais dúvidas e questionamentos que vêm acompanhando o homem há milhares de anos, e que teve no personagem de Shakespeare um de seus representantes mais angustiados. O romance de Rosa inicia-se com Riobaldo já envelhecido e aposentado de sua vida de jagunço contando sua história para um senhor que o narrador faz questão de deixar bem claro, em várias passagens, ser um homem culto, da cidade, que o escuta pacientemente. Diz o velho Riobaldo logo no início da narrativa: “Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma Doutoração.” Durante toda a narrativa, Riobaldo se questiona e questiona seu interlocutor sobre a existência ou não do Diabo: “Olhe: o que devia de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem o definitivo a noção – proclamar por uma vez, artes assembleias, que não tem Diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim davam tranquilidade boa à gente Por que o governo não cuida?!” Com o desenvolvimento do romance a presença do Diabo é evocada várias vezes e personificada em alguns casos, como por exemplo quando Riobaldo, ao saber da morte de Joca Ramiro, identifica o Diabo com Hermógenes, e este e Ricardão com Judas, figura que no imaginário cristão se confunde diversas vezes com a do próprio Diabo – e, sempre que citava, ele propositadamente se calava antes durante uns três ou quatro segundos, e depois, mudando a entonação, recitava o trecho desejado, que ilustrava o que acabava de dizer -: “O Hermógenes – ele dava a pena, dava medo. Mas, ora vez, eu pressentia: que do Demônio não se pode ter pena, nenhuma, e a razão está aí. O Demônio esbarra manso mansinho, se fazendo de apeado, tanto tristonho, e, o senhor para próximo – aí então ele desanda em pulos e prazeres de dança, falando grosso, querendo abraçar e grossas caretas – boca alargada. Porque ele é - é doido sem cura. Todo perigo.”

Parou de falar por um momento e, ao levar o copo aos lábios, percebeu que sua bebida tinha acabado e pediu mais uma dose ao garçom. Olhou para o meu copo, viu que ainda estava pela metade. Continuou:

- Riobaldo é um personagem extremamente complexo em sua introspectividade, apesar de suas origens simples e da ignorância de um conhecimento formal. A questão da existência ou não do Diabo ocupa uma posição relevante em sua vida, pois ele sabe, ou intui, que a existência de Deus está diretamente ligada à existência do “outro” – e ao dizer outro, fez uma pausa dramática, dando bastante ênfase à palavra para não haver dúvida para mim sobre quem seria o outro. - Para Riobaldo, um não existe sem o seu contrário. Para ele o Diabo é ruim, sua presença é temida, mas sua existência é necessária para se crer no próprio Deus, que como antagonista do Diabo significa o bem, o justo, enquanto o Demônio personifica o mal, a traição. – Pegou o copo que o garçom acabara de trazer, deu um gole e olhou durante alguns segundos para um ponto fixo acima de mim. Eu o escutava atentamente e nesse momento já tinha pegado minha caderneta e tomava notas do que ele dizia. - Há um ditado em latim que diz: “Sine Diabolo nullus Dominus”, ou seja: “Sem o Diabo não há Deus”. Segundo R. L. Thompson, em seu livro, The devil: “Pelo menos na superfície nossos corpos são bipolares, pois temos nossos lados direito e esquerdo, e nossos certo e errado, e se vivemos em um mundo de calor e frio, e de noite e dia, nele também há o bem e o mal, assim como existem Deus e o Diabo.”

- Mas então o senhor está contradizendo o que disse anteriormente.

- O que precisamente?

- Que para Guimarães Rosa o Diabo não existe em nosso íntimo e que ele está fora, como uma representação do mal criado pelas interações sociais.

- De maneira alguma estou me contradizendo. Acredito que era este o pensamento de Rosa e que é isso que podemos perceber por trás de seu romance, mas essa não é a concepção de seu personagem, Riobaldo. O que Riobaldo nos fala e o que Rosa quer nos mostrar são coisas sutilmente diferentes, e que podem ser percebidas no sofrimento e nas dúvidas que assolam o personagem durante toda sua vida. Ele não quer acreditar no Diabo, mas ao mesmo tempo, dentro da concepção filosófica e religiosa em que foi criado, negar um é negar o outro. Rosa soluciona a questão mantendo Deus no interior do homem - e ele pode sentir isso em sua solidão - e o Diabo fora, nas interações sociais. Mas ele não apazigua a alma de seu personagem dando a ele essa solução. Riobaldo sofre para nossa redenção. Sem querer ser dramático demais – e pela primeira vez o vi sorrir. – Mas voltando ao meu raciocínio sobre a concepção maniqueísta de Riobaldo. A todo momento o bem e o mal são contrapostos no romance. Se Joca Ramiro representa o bem e a justiça, Hermógenes e Ricardão, os “irmãos Judas”, simbolizam o mal e a traição. E a ambiguidade desses valores o atormenta por toda a vida, fazendo-o duvidar da existência do Diabo e consequentemente de Deus, mesmo que essa última dúvida seja velada. Simultânea e complementarmente a essas dúvidas teológicas, surge o questionamento sobre os conceitos de certo e errado – e novamente fechando os olhos por alguns segundos e assumindo aquela postura que descrevi anteriormente, e o mesmo tom de voz, começou a citar: - “Aquele lugar, o ar. Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora (...) Se é o que é – eu pensei – eu estou meio perdido. Acertei minha ideia. Eu não podia, por lei de rei, admitir...” Riobaldo se atormentava: é errado? Ou não? Ou em outro mundo, de sonho, ideal, esse amor poderia ser certo? – ele abaixou-se pegou o copo, tomou mais um gole e olhou para mim, mas na verdade não queria uma resposta, apenas disse aquilo para servir de pretexto para continuar citando outro trecho do romance: “O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente ─ ‘Diadorim, meu amor...’ Como era que eu podia dizer aquilo? Explico ao senhor: como se fosse para eu não ter vergonha maior, o pensamento dele que em mim escorreu figurava diferente, um Diadorim assim meio singular, por fantasma, apartado completo do viver comum, desmisturado de todos, de todas as outras pessoas ─ como quando a chuva entre-onde-os-campos. Um Diadorim só pra mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim ─ que não era de verdade. Não era? A ver que a gente não pode explicar essas coisas.”

- O senhor possui uma memória privilegiada – falei, interrompendo-o. – Lembrar-se de trechos tão longos e de um livro com uma sintaxe tão difícil e ainda mais em uma língua que não é a sua de origem, é sem dúvida admirável. – Apesar de falar isso ‒ e realmente a memória do homem era algo espantoso, como constatei ainda mais no decorrer da nossa conversa, melhor dizendo, de sua explanação ‒, pude notar que, ao citar, ele cometia alguns erros, principalmente nos neologismos de Rosa e em outras inversões sintáticas, mas que reproduzidas aqui estão corrigidas e fiéis ao texto original do escritor mineiro.


Riobaldo e Diadorim, interpretados pelos atores Tony Ramos e Bruna Lombardi na minissérie da Rede Globo, de 1985


- Como já lhe disse, debrucei-me várias vezes, centenas ou mais, sobre essa obra. E realmente alguns trechos busquei decorar, mas outros simplesmente vêm à minha mente como que por mágica. – E após tomar mais um gole de sua bebida e esperar que eu fizesse o mesmo, continuou: - A figura de Joãozinho Bem Bem é outro exemplo. Em um determinado momento do livro esse personagem faz com que Riobaldo se questione sobre a ambiguidade do bem e do mal, do certo e do errado. Por que caçar e matar Joãozinho Bem Bem? Jagunço justo, homem honrado, que só calhou estar do outro lado nessas guerras sem sentido e que se sucedem na vida de um jagunço. Este guerreia sem saber bem porquê ou para quem ou por qual ideologia. É seu destino, é sua natureza. Sô Candelário chega a sugerir, no julgamento de Joãozinho Bem Bem, que o soltem para que ele reúna novo exército e a guerra continue.

- É a maneira deles de viver - arrisquei.

- Sim, exatamente!

- E chego a pensar agora – continuei, mais confiante - se nossos projetos de vida são mais válidos do que os de um jagunço sertanejo. Se algo vale realmente a pena para que possamos lutar em seu nome e em seu favor: um amor, uma ideologia, uma crença. Alguma luta se justifica? Ou é mais válida que as lutas dos jagunços de Grande Sertão...? Que mudam de lado sem que isso altere em nada seu afinco, seu ardor em lutar e, até quem sabe, sua disposição em morrer defendendo algo que eles nem mesmo sabem o que é. Acho que nós, homens que atingimos um grau de civilidade maior do que aquele de um jagunço analfabeto, não somos muito diferentes deles nesse sentido. Ou por que não dizer, nessa falta de sentido. O senhor não concorda?

- Na verdade a vida dos homens de carne e osso, seus dramas, amores, desesperos, nunca me interessou muito. Nem mesmo a minha vida me é interessante. Apenas os seres feitos de papel e tinta me impressionam. Os dramas dos homens reais são medíocres e sem imaginação. A dor da humanidade inteira não vale um monólogo de Hamlet.

E me olhou fixamente. Sabia que ele esperava de mim uma de duas atitudes possíveis nesse caso. E as duas lhe dariam grande prazer. A primeira: que eu o contestasse, como cada molécula em mim queria fazer, o que nos levaria a uma discussão extremamente interessante e conflituosa madrugada adentro. E a segunda: que eu me calasse, permitindo que ele continuasse sua imersão maniqueísta no universo de Grande Sertão Veredas. Meu silêncio deixou claro que havia escolhido a segunda opção. E então ele continuou, não sem antes pedir ao garçom mais dois whiskies, o que me obrigou a dar um grande gole para acabar com o que ainda restava em meu copo.

- Para Riobaldo, a questão da existência ou não do Diabo é de fundamental importância para o seu entendimento da vida. A presença do Diabo em Grande Sertão... é sintomática e reflete, além do drama existencial do personagem, as tentações sofridas por ele, principalmente seu desejo proibido pelo amigo Reinaldo/Diadorim. Aqui o Diabo representa a carne e Deus a alma. Riobaldo nega seu desejo e invoca o Diabo, assim como os cristãos, quando foram perseguidos pelos romanos e outros povos, centenas de anos atrás, invocaram o Diabo como personificação de seus inimigos. Um vilão à altura do herói que viria salvá-los e redimi-los. Riobaldo conclama o Demônio à procura de Deus, mas a culpa o atormenta. A força do Diabo/carne é quase irresistível, e por isso ele busca negá-lo, ao mesmo tempo que credita a este as desgraças do mundo, inclusive as tentações. A solução, que o jagunço Riobaldo não consegue vislumbrar, para superar essa ambiguidade, é unificá-los: Deus e o Diabo, dois lados de uma mesma moeda, o bem e o mal juntos e inseparáveis.

Riobaldo nega a possibilidade de ser chefe do bando desde as primeiras páginas do romance, quando Medeiro Vaz morre e os companheiros, encabeçados por Diadorim, tentam convencê-lo a aceitar a chefia. Riobaldo nega o privilégio dessa primeira vez e vai demonstrar nas páginas seguintes seu desagrado em ser chefe, usando a justificativa de que não foi talhado para assumir chefia. Após a derrota para Hermógenes e a fuga a pé pelo sertão, o bando de Zé Bebelo encontra um pouso para descansar e tratar os feridos na batalha. Riobaldo então tem tempo para refletir e tomar uma decisão: pactuar com “o coisa má”, com “o que não ri”, “o muito sério”, “o que não fala”, assim como fez o Hermógenes. Riobaldo na verdade ainda não acredita totalmente na existência do Diabo, mas quer acreditar, pois somente a existência de um poder maligno e todo poderoso pode justificar as maldades deste mundo e a sorte atribuída a Hermógenes: “Na verdade real do Arrenegado, a célebre aparição, eu não cria. Nem. E, agora, com isto, que falei, já está ciente o senhor? Aquilo, o resto... aquilo – era eu ir à meia-noite, na encruzilhada, esperar o Maligno – fechar o trato, fazer o pacto!”

- Mas Riobaldo não acredita realmente na existência do Diabo ou ele apenas o teme, como seria mais coerente a um homem sertanejo e simplório como ele? – perguntei, mais para demonstrar ao meu interlocutor o meu interesse no assunto do que por real dúvida, pois na verdade eu entendia perfeitamente sua linha de raciocínio e de certa forma concordava com ela. Ele tomou mais um grande gole de seu whisky e, durante esse breve intervalo, pude notar que haviam mudado radicalmente a trilha sonora. Agora podia ouvir ao fundo o vozeirão meloso de Dean Martin – mais conhecido pela minha geração como o parceiro certinho e bonitão de Jerry Lewis nos filmes que passavam na Sessão da Tarde – cantando Innamorata.

- Riobaldo é um personagem de ficção, e apesar de sertanejo e simplório como o senhor acabou de afirmar, suas dúvidas e angústias não têm nada de simples. Assim quis seu criador, e não estou falando de Deus, mas sim do escritor que o criou. Acredito que a questão seja um pouco mais complexa. Mesmo sem crer totalmente no Diabo, Riobaldo vai a uma encruzilhada e à meia-noite invoca “o sempre sério, “o pai da mentira”, “o bode preto”, “o morcegão”, “o xu”. Ele quer algo que nem mesmo ele sabe o que é: “E o que era que eu queria? Ah, acho que não queria mesmo nada, de tanto que eu queria só tudo”. Riobaldo desejava na verdade transcender, ser mais do que ele mesmo. Queria, sim, firmar um pacto, seja com Deus seja com o Diabo, ou com os dois: “O que eu agora queria! Ah, acho que o que era meu, mas que o desconhecido era, duvidável. Eu queria ser mais do que eu. Ah, eu queria, eu podia. Carecia. ‘Deus ou o Demo’ – sofri um velho pensar.” Tomada essa decisão, Riobaldo invoca então a presença do Diabo, mas só tem em resposta o silêncio – e me olhando, melhor dizendo, olhando através de mim, citou como se me perguntasse, como se eu fosse o interlocutor de Riobaldo: - “O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.” – E antes que eu pudesse mesmo assimilar pergunta tão desconcertante, continuou.

- O Demônio não aparece, mas algo muda no íntimo de Riobaldo: “Ele não existe, e não apareceu nem respondeu – que é um falso imaginado. Mas eu supri que tinha me ouvido, me ouviu, a conforme a ciência da noite e o envir de espaços, que medeia (...) Ao que eu recebi de volta um adejo, um gozo de agarro, daí umas tranquilidades - de pancada.” Ele volta para o seu bando transformado, renovado – e continuou recitando, como se estivesse em estado de transe: - “E, o que eu fazia, era que eu pensava sem querer, o pensar de novidades. Tudo agora reluzia com clareza, ocupando minhas ideias, e de tantas coisas passadas diversas eu inventava lembrança, de fatos esquecidos em muito remoto, neles eu topava outra razão; sem nem que fosse pela minha própria vontade.” E o seu poder perante o bando cresce e sua autoridade ganha vulto. O até então tímido Riobaldo passa a questionar as decisões de Zé Bebelo e não mais admite ser contradito: “Daqui veio que Diadorim mesmo estranhou aqueles meus modos. A entender meu deu, e eu reminiquei, com soltura de palavras: como é que ia tolerar conselho ou contradição?” O anticlímax de sua ascensão à chefia do bando é quando Riobaldo com o grito de “Belzebu!” faz amansar os cavalos que se eriçaram à sua presença, como se percebessem algo que fugisse à percepção humana. E finalmente quando o cavalo do recém-chegado, Seu Habão, cedeu ao comando de “Belzebu!” gritado por Riobaldo e se amansou como “onça fêmea no cio do amor”. Em sinal de respeito, o fazendeiro presenteia Riobaldo com o belo animal. É a marca simbólica de sua ascensão. Durante a madrugada, com a chegada de João Guanhã, Riobaldo dá um passo à frente em plena confraternização dos jagunços que já estavam lá e dos recém-chegados, e fala mansamente: “Ah, agora quem é aqui que é o chefe?” E sem luta, sem contestação por parte do bando – com exceção de dois irmãos que se rebelaram e foram mortos por Riobaldo –, ele é alçado ao posto de novo chefe. Algo havia se modificado na alma de Riobaldo. Ele agora pensava ter o Diabo dentro de si, mas não era verdade. Riobaldo aproximava-se cada vez mais de Diadorim, de seu amor verdadeiro e proibido. O Diabo, que ele pensava agora estar em si, não passava de seu lado escuro, aquele que todos nós possuímos, e na verdade é uma dádiva e não uma maldição. É esse seu lado obscuro que se confundia com o "coisa-ruim'', com o Demônio. Este, na verdade, estava fora, na figura de Hermógenes e Ricardão. Esses representavam o mal em si. Riobaldo apenas experimentava o conflito que todos vivemos a todo momento em nossa própria essência, entre aquilo que achamos certo e aquilo que nossa consciência – baseada em todas as nossas experiências e no conhecimento que temos de vida – considera errado. E chamamos isso, simplória e equivocadamente, de luta entre o bem e o mal, travada em nosso íntimo.

Dizendo isso levantou seu copo e observou, por alguns segundos, o líquido amarelo baço. Seu olhar era vazio e a boca entreaberta deixava a impressão de que algo ficou por ser dito ou pelo menos que algo mais deveria ser dito, mas ele talvez não soubesse como ou simplesmente havia dado fim a conversa. Então me veio à mente o trecho de um livro que havia lido recentemente e que me deixou uma impressão muito forte, tão forte que o reli mais duas vezes no curto espaço de seis meses, e falei, ou melhor, citei:

- “Ah! Às vezes Deus nos chama com voz tão carinhosa e tão doce! Mas quando, de repente, Deus se afasta, o uivo que se eleva da carne decepcionada deve assustar o inferno.”

Pareceu-me então que havia conseguido sua atenção. Ele voltou-se para mim com um olhar interrogativo.

- É Bernanos, um trecho de Sob o sol de satã - falei.

- Conheço o livro, mas por que o citou?

- Bernanos nesse trecho, que é seguido pelo suicídio da atormentada Mouchette, pretende, penso eu, nos mostrar que o Demônio está dentro de nós, assim como Deus. Não fora, mas dentro, em nosso íntimo, e cabe a nós invocar a presença de Deus e sufocar a manifestação do mal, o Demônio.

- Bernanos era um escritor medíocre. Um escritor a serviço da causa cristã e por isso alienado. Seu maniqueísmo simplista não deve ser comparado, nem mesmo para seu demérito, com a complexidade da questão teológica presente no Grande Sertão... O Padre Donissan é um completo imbecil, quase um idiota, como aquele retratado por Dostoiévski. Uma figura patética, sem a mínima capacidade de uma auto reflexão minimamente interessante. O mais profundo que consegue atingir é uma sofrível comparação de si mesmo como confessor com um muro pichado... pichado por aqueles que confessam a ele seus pecados. Ora, isso é risível.

- A aparição que atormenta Donissan na estrada, e que Bernanos nos deixa entender que seja o Diabo, se transmuta em um ser igual a ele, como em um espelho, onde o padre pode enxergar, através do dom concedida a ele de ver o íntimo dos seres, seu próprio íntimo – e então me utilizando, de uma maneira não de toda desprovida de vaidade, do mesmo artifício do meu erudito companheiro de cabine, comecei a citar um trecho do livro que sabia de cor -: “Que o vigário de Campagne viu subitamente diante de si seu duplo, uma semelhança tão perfeita, tão sutil, que se poderia comparar não à imagem refletida num espelho, mas ao singular, único e profundo pensamento que cada um alimenta de si mesmo. ‘Ó senhor, somos assim transparentes ao inimigo que nos espreita? Somos entregues tão desarmados ao seu calculado ódio?’ Clama o padre e grita! ‘Retira-te, Lúcifer!’.”

Ouvindo essa derradeira frase o homem com quem eu então conversava de maneira cordata e civilizada, levanta-se como se atingido por alguma ira e, com o dedo apontado em riste para mim e com o copo levantado sobre a cabeça, começa a falar em um tom exaltado:

- Como ousa trazer para uma discussão, onde a existência de Deus e do Diabo é tratada de maneira tão sutil, brilhante e atormentada, como em Grande Sertão..., esse escritor panfletário de um cristianismo caduco e anacrônico, e seu missal mais conhecido que eu me recuso chamar de literatura?

E dizendo isso me fitou de maneira acusadora e beligerante. Por um momento fiquei intimidado, mas sem me levantar, apenas esticando o pescoço e empinando o queixo, me defendi e defendi o escritor francês da aparente fúria germânica:

- Bernanos é um grande escritor, independentemente de sua crença. Se pudermos deixar de lado, ou melhor, separar, e acho que para um leitor experiente como o senhor isso não seja difícil, o que existe de reflexivo e teológico em sua obra, de seu cristianismo panfletário, para usar os termos que o senhor utilizou para denegri-lo como autor, acho que podemos tirar muito proveito de sua obra, inclusive nessa discussão, como assim também o senhor denominou – e continuei, sem lhe dar tempo de falar: - Me recordo agora, que em sua última lamentação, em uma atitude de desespero e de confusão, quem sabe até de delírio, o padre Donissan troca as identidades de Deus e do Diabo, afirmando que aquele que o acompanhou por toda a vida, que lhe concedeu a graça de ler a alma humana e para quem dedicou toda sua existência, foi Satanás e não Deus. O Diabo se travestiu de Deus para enganá-lo e manipulou sua alma durante toda sua desgraçada existência – e assumindo uma postura idêntica ao meu agora menos irado companheiro, me recostei na poltrona, fechei os olhos e recitei mais um trecho de Sob o sol de satã: - “Ele veio logo, súbito, sem debate algum, espantosamente calmo e seguro. Por mais que arremede o Senhor, nenhuma alegria pode proceder dele, mas, bem superior à volúpia que revolve as entranhas, sua obra-prima é uma paz muda, solitária, gelada, comparável ao deleite do nada. Quando esse dom a alguém é concedido e aceito, o anjo que nos vela vira-nos o rosto, decepcionado.”

Nitidamente mais calmo, o professor Georg, após me olhar por alguns segundos, pedir mais dois whiskies ao garçom e sentar-se em sua poltrona, disse:

- Devo-lhe desculpas pela minha exaltação, não quis ofendê-lo. Vejo que tem um grande apreço por Bernanos, já que teve o trabalho de decorar trechos de sua obra.

- Tenho boa memória, duas leituras foram suficientes para tanto – disse, interrompendo-o.

- Admirável! E certamente o senhor não deixa de ter razão. Se conseguirmos ler Bernanos separando o tom de missal de alguns trechos e analisarmos aquilo que sua obra tem de discussão teológica e maniqueísta, podemos sem dúvida tirar muito proveito de seus escritos. Peço-lhe desculpas novamente por minha exaltação.

- Não há o que desculpar. Não me ofendi. Esqueçamos isso. E eu gostaria muito que o senhor continuasse do ponto que lhe interrompi.

- Sim. Concordo com o senhor, vamos continuar nossa conversa, mas não lembro onde parei.

- O senhor dizia que o mal que atormentava Riobaldo estava fora e era representado por Hermógenes e Ricardão, e que ele, Riobaldo, apenas experimentava aquele conflito que todos nós vivenciamos em nossa própria essência, entre aquilo que achamos certo e aquilo que nossa consciência considera errado. E chamamos isso de luta entre o bem o mal, travada em nosso íntimo.

- Ah, sim. E foi nesse ponto que o senhor sentiu a deixa para citar Bernanos – olhei sério para ele e não respondi, até que, entendendo meu silêncio, continuou um pouco constrangido pela provocação desnecessária. – Nos dias que então se seguem, Riobaldo busca fortalecer sua posição de chefe, mas trava uma luta inglória dentro de si. Diadorim então lhe diz: “A bem é que falo, Riobaldo, não se agaste mais... e o que está demudando em você, é o compito da alma – não é razão de autoridade de chefia.” O jagunço, agora chefe de bando, se atormenta com essa luta interna. De um lado essa gana de matar gente inocente, para assim demonstrar seu poder de chefe, seu poder de comando que ninguém deve ousar contestar, como Nhô Constâncio Alves e o “homenzinho-na-égua”, infelizes que cruzam o seu caminho. Na verdade, segundo seu pensamento, que cruzam o caminho do Diabo: “Daí, de repente, quem mandava em mim já eram os meus avessos (...) aquele homem merecia punições de morte, eu vislumbrei adivinhado. Com o poder de quê: Luz de Lúcifer? E era, somente sei. A porque, sem prazo, se esquentou em mim o doido afã de matar aquele homem, tresmatado.” Porém, de outro lado, sussurrando em seu outro ouvido, apoiado em seu ombro - e mudando de tom me disse sorrindo: – Me desculpe mas eu adoro esse clichê dos desenhos animados, em que temos o anjinho em um ombro e o diabinho em outro, tentando o personagem. ‒ Mas voltando, sussurra em seu ouvido uma outra voz antagônica aos seus desejos primários e demoníacos: “Ah, mas, então, do sobre dentro de minhas ideias – do que nem certo sei se seja meu uma minha voz, vozinha forte demais, de tão fraca, suministrou um cochicho. Foi. Em tão curta ocasião que teve, essa vozinha me deu aviso. Ah, um recanto tem miúdos remansos, aonde o Demônio não consegue espaço de entrar, então, em meus grandes palácios (...) – ‘tento, cautela, toma tento, Riobaldo: que o Diabo fincou pé de governar tua decisão.’”

Neste trecho podemos perceber que Riobaldo em seu conflito, acredita e desacredita no Diabo e está confuso sobre a sua forma de se manifestar: “O Demo então era eu mesmo?” – pensei em Bernanos quando ele citou esse trecho, mas fiquei calado. – As imagens profundas e sagradas misturam no inconsciente de nosso Fausto/Hamlet/jagunço: “Vi que acabava tendo de matar, e era o que eu mesmo queria. Como que tivessem espalhado, ombro com ombro, pelos inteiros cabíveis do chapadão, os diabinhos, mil a mil, tocando lindas violas – para acabar como que eu mesmo me falasse, e de mim quisesse por valia me entender, contra o que o Demônio mestre tinha determinado.” E mais a frente invoca a presença de Deus na figura de Nossa Senhora como sua salvadora: “Pois em instantâneo eu achei a doçura de Deus: eu clamei pela Virgem (...) agarrei tudo em escuros – mas sabendo de minha Nossa Senhora! O perfume do nome da virgem perdura muito; às vezes dá saldos para uma vida inteira.”

Nesse momento olhei discretamente o relógio e já passava das duas horas da manhã. Então um cansaço secular bateu à minha porta. Se o professor percebeu, fingiu que não viu, mas notei que ele acelerou um pouco seu discurso como se aproximando de uma conclusão.

- Riobaldo tenta lograr o Diabo e consegue uma, duas, três, quatro vezes! Poupando assim a vida de Nhô Constâncio, do “homem-da-égua”, do seu cachorrinho e por fim de sua égua; pois cada um vai assumindo o lugar do outro como alvo de seu afã demoníaco de matar. Até que finalmente libera todos. Mas ele, Riobaldo, percebe que algo mudou em sua alma, como lhe disse Diadorim, que assume então a figura de seu anjo da guarda. O amigo lhe surge de repente ao lado da árvore em que se escondia o leproso que Riobaldo iria executar friamente e o faz refletir - e mais uma vez assumindo a postura que antes eu havia tentado imitar, se recosta no sofá e com os olhos semicerrados declama mais um trecho do romance: - “Mas Diadorim, conforme diante de mim estava parado, reluzia no rosto, com uma beleza ainda maior, fora de todo comum. Os olhos – vislumbre meu – que cresciam sem beira, dum verde dos outros verdes, como o de nenhum pasto. E tudo meio se sombreava, mas só de boa doçura. Sobre o que juro ao senhor: Diadorim nas asas do instante, na pessoa dele vi foi a imagem tão formosa de minha Nossa Senhora da Abadia! A santa.” Riobaldo agora vivia às voltas com seu desespero pessoal, suas contradições e dúvidas: Vendeu a alma? Era o Diabo que se manifestava através dele? Ou se vendeu mesmo a alma, mas a um comprador inexistente? Que sendo assim então não poderia lhe dar nada em troca, em pagamento: “Vendi minha alma algum? Vendi minha alma a quem não existe? Não será pior? (...) O demo, tive raiva dele? Pensei nele? Em vezes.” O Demônio não levara paz à alma do atormentado jagunço.

Apesar do cansaço e sono, ainda tive, em um derradeiro esforço, ânimo para fazer uma intervenção, que pelo visto o agradou.

- Mas era isso que Riobaldo queria em troca, no seu pacto, que o Demônio lhe apaziguasse a alma? Se era, nosso herói faustiano pecou pela ingenuidade, pois não é coisa do Diabo tranquilizar almas e sim roubá-las, melhor dizendo, negociá-las, tomá-las em acordos escusos. Ou ele pediu um corpo fechado, uma capacidade sobre-humana de guerrear e chefiar o seu bando que o habilitava a vencer Hermógenes?

- Sim, sem dúvida! O senhor está certo, certíssimo, era exatamente isso o que o jovem Riobaldo desejava: força, coragem, energia e um corpo fechado, como o senhor disse, para vencer seu inimigo e vingar a morte de Joca Ramiro. E mais, oferecer essa vingança, como prova de amor, a Diadorim. O velho Riobaldo, que conta suas desventuras para o Doutor, esse tem outros desejos. Esse sim deseja paz para sua alma atormentada por um amor do passado, não realizado. Mas voltemos ao jovem Riobaldo. Este, por sua vez, queria então enganar o Diabo, romper o trato, agora que chefiava o bando e que partia para o grande desfecho de sua aventura. E falava de si para si: “Tu vigia, Riobaldo, não deixa o Diabo te pôr sela (...) Aí eu queria fazer um projeto: como havia de escapulir dele, do Temba, que eu tinha mal chamado. Ele rondava por me governar? Mas, então governar pudesse, eu não era o Urutu-Branco, não vinha a ser chefe de nada, coisa nenhuma! Ah, eu carecia dum jeito, dum esperto socorro, para tentear com o sujo em suas próprias portas e mediante me pôr livre de fim fatal. De que modo?”

Quando terminou essa citação, meu companheiro de cabine levantou-se, foi até uma das janelas do vagão, arredou a cortina e olhando para fora bebeu um grande gole de seu whisky, e sentindo o sacolejar malemolente do trem, disse:

- Nunca fui a Sevilha – e voltando-se para mim. - Não gosto desses trens modernos em que não sentimos o seu movimento, como os trens-bala japoneses ou os trains à grande vitesse franceses. É como se não nos movêssemos. É como se o destino viesse a nós, e não o contrário. Ora, somos nós que devemos ir em direção ao nosso destino e não ele a nós. O senhor não acha? - mas sua pergunta foi retórica, pois logo emendou. – Mas voltando ao nosso herói, Riobaldo queria mudar e moldar seu destino e, segundo suas próprias palavras, seu “espírito era uma coceira enorme” e ele não era do Demo e nem de Deus. Riobaldo sofria, órfão. Seu amigo Reinaldo tinha um segredo para lhe contar quando tudo acabasse e a vingança contra Hermógenes fosse cumprida. Em uma das cenas finais, na derradeira batalha, Riobaldo vence a guerra contra Hermógenes. O Diabo fez sua parte. Riobaldo sai vencedor do confronto e Hermógenes morre pelas mãos de Diadorim. Mas o Diabo cobra sua parte imediatamente. O Dito não leva a alma de Riobaldo, mas a dilacera, matando seu grande amor. A notícia da morte de Diadorim e a da vitória de seu bando na batalha são dadas praticamente ao mesmo tempo, com a distância de uma linha no livro. E quando Riobaldo vê o corpo nu de Diadorim, ele se encontra com o seu destino. Algo que podia ter sido e não foi. O amor possível sempre esteve ao seu lado, desde criança. Possível, possível, mais do que possível, e não impossível como ele sempre acreditou. A pergunta que o leitor se faz nesse momento é a seguinte: O Diabo saiu vencedor dessa peleja? Zé Bebelo, a quem Riobaldo procura nas páginas finais do livro, pede que ele procure uma pessoa; uma figura que acompanha toda a narrativa, sem nunca aparecer, sempre citado por Riobaldo. Uma figura que representa o bem em seu estado mais puro, revertido de uma simplória sabedoria: “Riobaldo, eu sei a amizade de que agora tu precisa. Vai lá (...) Ele é diverso de todo mundo.” Diz-lhe Zé Bebelo. E Riobaldo o descreve para o seu interlocutor: “O senhor vai ver pessoa de tal rareza, como perto dele todo o mundo para sossegado, e sorridente, bondoso...” Essa pessoa é o compadre Quelemém, a quem ele faz a pergunta que tanto o atormentava: “O senhor acha que a minha alma eu vendi, pactário?” E o outro responde, sorrindo: “Tem cisma não. Pensa para diante. Comprar ou vender, às vezes, são as ações que são as quase iguais...”

E ainda de pé diante da janela, liquida com um último gole o que ainda restava de sua bebida e diz, sem se furtar a um tom trágico de grand finale para sua explanação:

- Viver é negócio muito perigoso, se carece de muita coragem, meu jovem. E esse negócio de pactos, não se esqueça, tem sempre dois lados - e se aproximando de mim, após colocar seu copo vazio sobre a mesa e a mão esquerda sobre meu ombro, diz: – Mas vejo que está cansado e que já terminou seu whisky. Vamos para a cabine e não se preocupe com as despesas da bebida, faço questão de pagar em agradecimento pelo senhor ter me feito companhia e ter dado ouvidos a esse velho falastrão.

Contestei imediatamente, dizendo que gostaria de dividir a conta e que havia sido um grande prazer conversar com ele sobre um romance que me é tão caro. Mas meu companheiro se mostrou irredutível. Ao voltarmos à cabine me assustei com as horas e não demorei muito para pegar no sono, mal dando boa noite ao professor.

No dia seguinte quando acordei, despertado pelo funcionário da rede ferroviária que batendo violentamente na porta avisava que faltavam quarenta e cinco minutos para chegarmos ao nosso destino, me surpreendi de não encontrar meu companheiro na cabine. Sua cama estava arrumada e suas malas haviam desaparecido. Levantei-me, lavei o rosto, troquei de roupa e fui até o vagão restaurante encontrar-me com M.... E lá estava ela à minha espera, acenando efusivamente.

- Bom dia! – disse eu.

- Bom dia! Dormiu bem? Tomara que sim, porque eu tive uma noite péssima. Passei o tempo quase toda acordada com medo de ser assaltada ou de alguém entrar na cabine. Quase dei um grito quando uma mulher abriu a porta mais cedo avisando que estávamos chegando.

- Eu dormi bem, fiquei até bem tarde conversando com o meu colega de cabine. Você não vai acreditar na coincidência. Ele é alemão, mas fala fluentemente o português, e dá aulas ou deu, agora não me lembro, de literatura no Brasil durante muitos anos. Um especialista em Guimarães Rosa, e quando me viu com o livro puxou assunto e fez uma verdadeira palestra sobre o mito faustiano em Grande Sertão....

- De novo esse assunto? Fausto, pacto, demônios. Parece uma ideia fixa. Deus me livre!

E começou a contar sobre seus medos e suas estranhas companheiras de cabine. Enquanto tomávamos café e conversávamos, fiquei observando para ver se meu companheiro de cabine aparecia, mas nada. Onde ele poderia estar? Não havia outro vagão restaurante no trem. Assim que acabamos de tomar nosso café o trem chegou em Sevilha. Descemos rapidamente e na plataforma pude ver o professor embarcando em um táxi. Tentei acenar para me despedir, mas ele não se virou. Uma pena, pois não trocamos telefones ou e-mails e seria uma pessoa com quem eu gostaria de manter contato no Brasil. Na própria estação conseguimos reservar um hostel no centro da cidade. Por volta das dez horas da manhã já caminhávamos pela bela Sevilha.






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11 Comments


lervangogh
Mar 30, 2021

Um texto ensaio /crítico/ ficcional refletindo a trama intertextual. Excelente escrita em que direciona o crítico também para a criação, questionando as fronteiras entre gêneros. A retomada de trechos do clássico "Grande Sertão: Veredas" coloca-nos novamente diante do impasse das concepções dualistas, como Deus e o Diabo, diante dos conflitos e das aporias que perseguem a existência humana. Temas esses, que também sustentam a estetização da experiência do homem, transmutados em experimentações da linguagem. Esse exercício leva o autor à recriação e estimula o leitor à releitura do clássico de Guimarães Rosa, além de outros autores citados. Parabéns pela escrita criativa!

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Maximino lage
Mar 14, 2021

Excelente texto e arguta avalição do Mestre mineiro... sempre o diabo heim nelsão!!! parabéns!!

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marciatristao64
Mar 11, 2021

Links muito interessantes entre realidade, ficção, livros, citações, pensamentos... "Dualidade" multifacetada! Sempre o bem e o mal, e suas representações e análises. Viajei! ... literalmente, no espaço vazio entre eles!

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marciatristao64
Mar 30, 2021
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Legal amorzão! Continue escrevendo, despertando, estimulando e ensinando tanta coisa bacana. Te amo!

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Unknown member
Mar 10, 2021

Que sorte a sua que no livro não era Dom Quixote ..

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criticaderodape
Mar 30, 2021
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Obrigado Ana Paula! mas lembre-se que em literatura quase nunca a sorte é um elemento autônomo, ela está sempre a trabalho do texto e a serviço de quem escreve. O contraste entre o lugar em que se passa o diálogo (interior da Espanha), e o local em que é ambientado o romance de Guimarães Rosa (as veredas do sertão mineiro) é proposital e tem por objetivo criar este estranhamento espacial no leitor. Forte abraço

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luizcassiolopes
Mar 10, 2021

O bem ou o mal, como existência própria, é semelhante ao "ser em si" de Kant. Ele só existe como algo metafísico. Só podemos ver os fenômenos que nós atribuímos pra eles.

"o homem é a medida de todas as coisas" e Deus e o Diabo é a nossa existência, com seus ônus e seus bônus que personificamos.

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Nelson Ricardo Guedes dos Reis
Nelson Ricardo Guedes dos Reis
Mar 11, 2021
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Olá Cássio! ótimo link feito com o conceito do "ser em si" de Immanuel Kant, Ilustra muito bem o diálogo dos personagens sobre a existência do mal e do Diabo em Grande Sertão Veredas. “Nonada. O Diabo não há!... Existe é homem humano...” Forte abraço.

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