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  • Foto do escritorNelson Ricardo Guedes dos Reis

A OBRA EM NEGRO

Atualizado: 15 de jul. de 2020



A OBRA EM NEGRO

Marguerite Yourcenar


(Uma escalada literária)




No dia 31 de outubro de 1517, em wittenberg na Alemanha, apareceram pregadas na porta da principal igreja local, as 95 teses de Martin Lutero, que tinha como objetivo inicial apenas indicar pontos que deveriam ser revistos nas doutrinas católicas, como por exemplo a venda de indulgências: “Uma indulgência jamais pode remir uma culpa; o próprio Papa não pode fazer tal coisa; Deus conservou esse privilégio em suas próprias mãos” (Das 95 teses - Martin Lutero). Lutero não queria, em princípio, a destruição da igreja católica, e nem mesmo sua fragmentação (ele era monge e professor de teologia da Universidade de Wittenberg); o que ele propunha era apenas reformas nos principais dogmas e doutrinas de sua igreja. Entretanto, o que o mundo viu surgir a partir dali foi um dos capítulos mais sangrentos da história da Europa. Por mais de 100 anos, protestantes e católicos se debateram em diversos níveis, desde as mais brandas discussões teológicas, até as as mais sangrentas batalhas, como por exemplo “A noite de são Bartolomeu”, ocorrida em agosto de 1572, quando milhares de protestantes morreram em um ato repressivo ordenado pelos reis franceses:


“Acontecimentos violentos foram típicos da vida européia até meados do século XVII. Motins, refregas, cercos e saques de cidades, autos-de-fé e fugas para escapar pelo exílio a uma condenação iminente repetiram-se sem folga. Na Alemanha, 23 anos de guerra, com breves pausas, mantiveram em campo duas instáveis ligas de príncipes, protestantes e católicos. Na Holanda o vai e vem contínuo por um período algo mais breve, assim como nos cantões suíços (...) Na França os últimos trinta anos do século foram dedicados a oito períodos de guerra civil, com emboscadas, escaramuças, assassinatos e massacres nos intervalos, incluindo a famosa Noite de São Bartolomeu.” (trecho do livro: Da alvorada à decadência - Jacques Barzun).


É neste cenário, de uma Europa dividida e em conflito entre católicos e protestantes, que Marguerite Yourcenar situa seu romance. Zênon, o herói da narrativa, nascido em 1510 na então próspera cidade portuária de Bruges (é dessa época o início do processo de assoreamento dos principais canais da cidade, fazendo com que seu porto rapidamente perca importância, sendo substituído na região pelo porto de Antuérpia), é um médico, alquimista e filósofo. Filho bastardo da irmã de um importante comerciante e banqueiro de Bruges, muito jovem Zênon ganha o mundo. Ele deixa a tutela de seu primeiro preceptor e mestre, o Cônego Bartolomeu Campanus, que lhe introduziu nos primeiros ensinamentos teológicos, para procurar outros mestres e diversificados ensinamentos. A primeira parte do livro é intitulada, “A vida errante”; são nessas quase 130 páginas que Yourcenar faz seu personagem viajar pela Suécia, Espanha, França, Países Baixos, na verdade quase toda Europa, e ainda visitar o oriente. Zênon se torna médico e adquire profundos conhecimentos em alquimia e filosofia. Trabalha para reis, bispos e arquiduques, escreve livros com teorias heréticas e revolucionárias; é condenado e perseguido, troca de nome assumindo a identidade de Sebastião Theus e retorna a Bruges, já passados dos cinquenta anos, para viver, a princípio, com seu velho amigo o cirurgião-barbeiro João Myers, e depois da morte deste, trabalhando como médico no asilo de São Cosme, ligado à Abadia local.


"Melancolia I" de Albrecht Dürer


Todo o romance, inclusive a segunda parte, intitulada “A vida imóvel”, e a terceira, “A prisão”, tem como pano de fundo a Europa renascentista e reformista. A própria autora, em um esclarecedor posfácio, onde descreve minuciosamente a gênese de sua obra-prima, descreve que há passagens de seu livro que “transcorrem inteiramente em Flandres, e os temas boshianos e brueghelianos de desordem e do horror do mundo inundam a obra…” E realmente o leitor mais atento perceberá que há trechos do romance que nos transporta para o interior de alguns dos quadros dos pintores flamengos, Hieronymus Bosch e Pieter Bruegel, o Velho. Em outro trecho do posfácio a autora é ainda mais específica:


“Os sessenta anos durante os quais transcorre a história de Zênon assistiram cumprir-se um certo número de acontecimentos que ainda nos dizem respeito: a cisão do que restava, por volta de 1510, da antiga cristandade medieval em duas facções teológicas e politicamente hostis; a falência da Reforma, convertida em protestantismo (...); o revés paralelo do catolicismo aprisionado no colete de ferro da Contra- Reforma (...) Tais fatos, muito amplos para serem vistos pelos contemporâneos, afetam indiretamente a história de Zênon, mais diretamente talvez a vida e o comportamento das personagens secundárias, em sua maioria submissas às rotinas de seu século.”


Zênon é um personagem inventado, mas a construção de seu perfil teve como modelo vários personagens reais dessa convulsiva época de transição. Yourcenar cita, no já referido posfácio, as figuras de Paracelso, Da Vinci, Giordano Bruno, dentre outros. A autora inclusive faz uso de um interessante artifício literário; muitas das teorias de Zênon, assim como seus estudos alquímicos e projetos de invenções, foram tomados de empréstimo das obras e pensamentos desses influentes homens da época. Vários dos personagens secundários da trama foram realmente figuras históricas reais, e outros foram inspirados em figuras da época, como a autora explica neste trecho: “Em alguns casos, a própria expressão de um sentimento ou de um pensamento foi tomada de empréstimo aos fatos históricos contemporâneos da personagem, a fim de melhor autenticar que tais pontos de vista tinham seu lugar no século XVI. Uma reflexão sobre a loucura da guerra foi extraída a Erasmo, em outra, a Leonardo Da Vinci (…) A frase sobre a identidade da matéria, da luz e do raio resume duas curiosas passagens de Paracelso” E os exemplos continuam, inclusive com a autora explicando que algumas datas de eventos históricos foram mudados para se adequar à dinâmica da narrativa.



Um outro personagem que a autora não cita, mas que não podemos deixar de considerar um modelo de época para a construção de Zênon, é o Doutor Fausto. Essa figura mitológica, que de fato existiu, e depois foi imortalizada na literatura por nomes como Christopher Marlowe, Goethe, Thomas Mann, dentre outros, guarda diversas semelhanças com o personagem principal do romance. Este, assim como o Doutor Fausto, era médico e alquimista, foi perseguido por suas ideias e acusado de heresia. Um dos pontos mais enriquecedores desse complexo personagem criado por Marguerite Yourcenar, é que assim como o Doutor Fausto de Goethe - e também o de Marlowe e, obviamente, o próprio que serviu de inspiração, Johannes Georg Faust, que viveu entre o final do século XV e início do século XVI -, ele é fruto de um momento de transição de nossa história da ciência e das ideias, na verdade um momento de transição do pensamento e da cultura ocidentais. Zênon, ao mesmo tempo que é um homem com ideias modernas e científicas, como por exemplo a invenção de um aparelho voador (“Seus desenhos de bombas voadoras e de veículos impulsionados pelo vento que faziam rir os juízes levaram-me a pensar em Simão, o mágico - disse o cônego erguendo para ele olhos inquietos.”), que se utiliza de técnicas médicas mais avançadas e despreza procedimentos anacrônicos, como a sangria, ainda largamente utilizada pelos médicos da época; contraditoriamente, este mesmo homem também é um alquimista, que persegue a “obra em negro”, que é a suposta fase de separação e dissolução da matéria ou seja, a culminância, para os alquimistas, da “grande obra”, a transmutação dos metais. Em outras palavras, ele representa o homem de ciências desse momento de transição da idade média para o renascimento. Com a visão voltada para as ciências e suas possibilidades, mas ainda tolhido pelo pensamento místico da idade média. Uma época em que homens como Galileu, Giordano Bruno, Copérnico, Giovanni Campanella e tantos outros visionários, e neste romance o próprio Zênon, tiveram de se deparar, fugir, e muitas vezes se curvar aos preconceitos e pensamentos tacanhos da Santa Inquisição e das demais autoridades eclesiásticas e estatais da época. O trecho que reproduziremos a seguir - parte do diálogo entre Zênon e o Cônego Bartolomeu Campanus - demonstra bem esse momento de mudanças de valores e conceitos, e como um personagem como Zênon se vê em posição de representar um homem de seu século, mais ligado ao renascimento do que à agonizante época medieval:


“ - Você jamais saberá com que peso seu naufrágio pesa em minha consciência - arriscou ele, tentando uma nova abordagem. - Não falo de seus atos sobre os quais pouco sei, e que quero crer inocentes, embora o confessionário me ensine que os piores pecados podem aliar-se a virtudes como as suas. Falo dessa fatal rebelião do espírito que transformaria em vício a própria perfeição, e da qual talvez haja eu, sem pretende-lo, lhe inculcado os germes. Como o mundo mudou, e como as ciências e a antiguidade pareciam benéficas no tempo em que eu estudava letras e artes… Quando penso que fui o primeiro a ensinar-lhe essas Escrituras que você despreza, pergunto-me se um mestre mais firme ou mais culto do que eu era…

- Não se aflija, optime pater - disse Zênon. - A rebelião que o inquieta estava em mim, ou talvez em nosso século.”


Em sua orelha para a edição da Nova Fronteira, o tradutor e crítico Ivan Junqueira escreve: “...Zênon de A obra em negro é um personagem histórico fictício, um ser compósito, contudo jamais sintético, arrancado às entranhas do fascinante e dualístico momento histórico em que, ao longo do século XVI, já não mais se distinguem - sobretudo na França, na Itália, nos Países Baixos e na Alemanha - os estertores da idade média e as primeiras luzes do Renascimento.” Junqueira aliás, buscou ser o mais fiel possível ao estilo erudito da autora, e por isso nos entregou uma tradução brilhante, mas de leitura árida, conquanto prazerosa; pois não nos esqueçamos que somente do alto de grandes colinas podemos vislumbrar belas paisagens, mas para chegar lá em cima temos de escalar suas encostas, como o leitor deve escalar as páginas do romance de Marguerite Yourcenar para assim receber sua recompensa.


(A edição que serviu de base para o texto acima foi a primeira, de 1981, lançada pela Nova Fronteira, com tradução de Ivan Junqueira e Nota da autora. Existem outras edições disponíveis em sebos, como a da Rio Gráfica e do Círculo do Livro. Recentemente a Nova Fronteira relançou a obra em uma bela edição de capa dura.)


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Marguerite Yourcenar, em seu gabinete de trabalho


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2 Comments


Nelson Ricardo Guedes dos Reis
Nelson Ricardo Guedes dos Reis
Jul 25, 2020

Obrigado Márcia! Agora é só você tomar coragem e encarar a leitura deste pequeno Everest literário. A escalada vale a pena.

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marciatristao64
Jul 15, 2020

Adorei esta crítica e o conteúdo do livro que nos ensina muito sobre este momento histórico de quebra do dominio da instituição Igreja Católica. Parabéns Nelson!

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