A INOCĂNCIA DO PADRE BROWN
- Nelson Ricardo Guedes dos Reis
- 1 de jul. de 2020
- 5 min de leitura

A INOCĂNCIA DO PADRE BROWN
G. K. Chesterton
(O padre-detetive e a busca da redenção da alma humana)
Ă quase impossĂvel falar do pequeno, rechonchudo e simplĂłrio Padre Brown sem levar para a mesma discussĂŁo seu criador, G.K. Chesterton, que em contraposição com seu âpadrezinhoâ de aparĂȘncia discreta e humilde, era um homem grande, gordo e espalhafatoso, com aproximadamente 135 quilos distribuĂdos em pouco mais de 1:90 de altura. Uma figura que preenchia o ambiente com sua presença fĂsica e sua personalidade expansiva. Era tambĂ©m um grande conversador e polemista, um homem que dedicou sua vida Ă arte, Ă s ciĂȘncias humanas e Ă religiĂŁo. Sua obra conta com dezenas de livros, entre romances, contos, ensaios, poemas, peças e textos teolĂłgicos e filosĂłficos. A figura do simpĂĄtico padre-detetive Ă© indissociĂĄvel da conversĂŁo de seu criador ao catolicismo â um divisor de ĂĄguas em sua vida. Chesterton era inglĂȘs, nascido em 1874 na cidade de Londres. Criado e crescido dentro da igreja anglicana, seu cristianismo sempre foi um fator determinante em sua vida. AtĂ© que no inĂcio da dĂ©cada de vinte converteu-se ao catolicismo. Hoje Chesterton Ă© uma referĂȘncia nos estudos teolĂłgicos em todo o mundo. Seus textos sĂŁo estudados e sociedades em torno de sua teologia filosĂłfica sĂŁo criadas. Aqui mesmo no Brasil existe a sociedade Chesterton Brasil, que se dedica em discutir seus textos religiosos e divulgar sua obra.

Esse pequeno preĂąmbulo acerca do autor tem como objetivo esclarecer alguns pontos marcantes de seu personagem. O prĂłprio Chesterton disse uma vez que a figura do Padre Brown foi explicitamente inspirada em um padre que o autor conheceu e que foi fundamental para sua conversĂŁo ao catolicismo. Nos doze contos que compĂ”em o livro (o autor publicou mais algumas coletĂąneas de contos com o seu famoso personagem â A inocĂȘncia d Padre Brown Ă© o primeiro deles), fica claro para o leitor que o autor inglĂȘs utiliza-se de se padre-detetive para expor, de uma forma mais simples e acessĂvel para o grande pĂșblico - fazendo uso do, jĂĄ popular na Ă©poca, gĂȘnero policial -, seus posicionamentos cristĂŁos e humanitĂĄrios.
O aparentemente ingĂȘnuo Padre Brown Ă© um âdetetiveâ, poderĂamos dizer, um tanto quanto diferente de seus famosos pares literĂĄrios, como Sherlock Holmes, Hercule Poirot, dentre outros. O padre-detetive quase nunca necessita analisar pistas, usar lupas, interrogar de forma peremptĂłria seus suspeitos, subir em muros, usar armas ou se envolver em qualquer tipo de violĂȘncia fĂsica para encontrar seu culpado. Nosso personagem utiliza-se quase que tĂŁo somente de seu profundo conhecimento da alma humana para, sentado quietamente em um canto â geralmente enquanto seu amigo, o detetive particular e ex-criminoso convertido pelo prĂłprio Padre Brown, Flambeau, quebra a cabeça para encontrar alguma lĂłgica naquele crime tĂŁo estranho â, solucionar o caso com uma espĂ©cie de insight. O grande diferencial do personagem de Chesterton em relação aos outros famosos detetives analĂticos da literatura, Ă© que Brown se vale quase sempre de sua anĂĄlise da triste e perversa alma humana (alma essa que ele conhece a fundo, apĂłs ouvir milhares e milhares de confissĂ”es e descobrir o que o existe de mais sĂłrdido no ser humano), para desvendar os casos. Brown parte de uma surda e profunda anĂĄlise da alma dos suspeitos, atravĂ©s de suas falas, gestos, comportamentos, etc, para chegar atĂ© as evidĂȘncias que provem sua culpa.
Apesar das tramas serem, na maioria das vezes, brilhantemente intrincadas e com soluçÔes nĂŁo menos geniais, como em âOs estranhos passosâ, onde o Padre Brown descobre o criminoso apenas analisando os passos que ouve no corredor, do outro lado da porta; em âO jardim secretoâ, meu preferido, onde o Padre Brown compreende, antes de todos, a presença de um cadĂĄver impossĂvel e duas cabeças; em âA honra de Israel Gowâ (escolhida pela revista Bravo como um dos 100 melhores contos da histĂłria da literatura); ou em âA forma erradaâ, onde o formato errado de uma folha de papel (aqui a pista precede a anĂĄlise da alma humana) desencadeia uma sĂ©rie de raciocĂnios que o faz descobrir o criminoso. Mas como ia dizendo, antes de ser grossamente interrompido por mim mesmo, apesar das complexas tramas e soluçÔes, o principal para Chesterton e seu padreco Ă© a redenção da alma humana. Brown, em muitos dos contos, permite que o criminoso vĂĄ embora, dando a ele a possibilidade de se arrepender de seu crime, de seu pecado, e de nĂŁo conseguindo conviver com a culpa, se entregar e se redimir, como em âO malho de Deusâ ou em âA forma erradaâ, em que ele induz o criminoso a lhe escrever uma confissĂŁo:
âAo fazer isso aconteceu o fato extraordinĂĄrio. A natureza desertou-me. Senti-me mal. Senti-me como se estivesse feito alguma coisa errada. Acho que minha cabeça vai explodir; sinto uma espĂ©cie de prazer desesperado ao pensar que contei o fato a alguĂ©m: que nĂŁo terei de ficar sozinho com isso se me casar e tiver filhos. Que Ă© que hĂĄ comigo?... loucura... ou Ă© possĂvel alguĂ©m ter remorso como se estivĂ©ssemos nas poesias de Byron?â
Chesterton utiliza-se de seu padre para fazer dezenas e dezenas de digressĂ”es filosĂłficas e teolĂłgicas no decorrer de seus contos, como por exemplo quando o criminoso, em âO molho de Deusâ, lhe pergunta: âComo pode saber de tudo isso? O senhor Ă© o demĂŽnio? â sou um homem â respondeu o Padre Brown, gravemente â e, por conseguinte, trago todos os demĂŽnios no coração.â Ou essa longa digressĂŁo, mas que acreditamos valer a pena sua reprodução aqui, por ser uma Ăłtima amostragem da profunda filosofia teolĂłgico-cristĂŁ que fundamenta as deduçÔes detetivescas do padre, que sempre parte de um princĂpio cristĂŁo e o desenvolve de maneira filosĂłfica em conjunção com o perscrutar das atormentadas almas humanas:
â - Meu amigo â disse finalmente -, este caso Ă© muito esquisito. Muito esquisito mesmo.
- Eu tambĂ©m acho â concordou Flambeau, com uma espĂ©cie de estremecimento.
- VocĂȘ o acha esquisito e eu o acho esquisito e, nĂŁo obstante, significamos coisas completamente opostas. A mente moderna mistura ideias diferentes, mistĂ©rio no sentido do que Ă© maravilhoso e mistĂ©rio no sentido do que Ă© complicado. AĂ estĂĄ a dificuldade sobre milagres. O milagre Ă© surpreendente, mas Ă© simples. Ă simples por que Ă© milagre. Ă o poder que vem exatamente de Deus, ou do DemĂŽnio, em vez de indiretamente atravĂ©s da natureza ou da vontade humana. Ora, vocĂȘ quer dizer que esse negĂłcio Ă© maravilhoso, por que Ă© miraculoso, por que Ă© feitiçaria de um indiano. Compreenda, eu nĂŁo digo que nĂŁo seja espiritual ou diabĂłlico. SĂł o CĂ©u e o inferno sabem por quais influĂȘncias circunstantes estranhos pecados entram na vida dos homens. Mas, no momento, meu ponto de vista Ă© que, se isso for pura magia, como vocĂȘ pensa, entĂŁo Ă© maravilhoso; mas nĂŁo Ă© misterioso, isto Ă©, nĂŁo Ă© complicado. A qualidade de um milagre Ă© misteriosa, mas sua maneira Ă© simples. Ora, a maneira desse negĂłcio tem sido o contrĂĄrio do simples.â

Ă realmente um prazer acompanhar as andanças do Padre Brown, quase sempre acompanhado de seu amigo Flambeau, pelas ruas de Londres e pelas pequenas cidades da Inglaterra. Esses cenĂĄrios sĂŁo panos de fundo que tornam a leitura deste pequeno livro de contos ainda mais agradĂĄvel. Muitas vezes nos compadecemos do crĂ©dulo Padre Brown, que busca salvar as almas humanas que lhe cabem, e para isso busca desvendar os mistĂ©rios, mesmo sabendo que âo grande medo que as pessoas tĂȘm de procurar a verdade, Ă© de encontrĂĄ-la.â O que o abate, mas nĂŁo o desestimula a procurar essa verdade, e de dar uma chance a essas almas atormentadas pelo crime, de se redimirem aos olhos de Deus.
(A edição utilizada como base para o texto acima foi a da editora Record (s/d), com tradução de Edilson Alkmin Cunha e jĂĄ esgotada. HĂĄ uma edição mais recente da L&PM que pode ser encontrada nas livrarias. TambĂ©m hĂĄ disponĂvel no mercado uma caixa com os contos completos do Padre Brown, lançado atravĂ©s de uma parceria entre a Sociedade Chesterton Brasil com as EdiçÔes Hugo de SĂŁo VĂtor.)